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As Mulheres e o Haicai


1ª Palestra de Haicai no Amazonas - Livraria Valer: Quarta Literária
Manaus, AM, 05 de julho de 2000
por Rosa Clement


THOSE WOMEN WRITING HAIKU. 1990. Jane Reichhold.
(AQUELAS MULHERES ESCREVENDO HAICAI), 1990.

O trabalho de Jane conta a história das mulheres que escreveram desde o tempo de Basho, até as de 1990. Muitas, muitas mulheres escreveram poemas e haiku de alta qualidade, e somente lendo o livro inteiro seria possível fazer justiça a todas. Porém, por questão do limite de tempo, fizemos uns poucos destaques...

O livro inclui antologias e biografias de diversas mulheres neste período. A autora faz um estudo incluindo as mulheres dos Estados Unidos, Canadá, Alemanha e Japão. Menciona as dificuldades para escrever o livro, para publicá-lo, obter as informações, especialmente das mulheres japonesas, devido a barreira da língua. Mesmo sendo uma autora de renome, não conseguiu despertar o interesse dos editores, em sua maioria homens, que não quiseram arriscar a publicar um estudo sobre mulheres escrevendo haicai.

Como ela menciona: "Devo admitir que quando comecei a coletar o material para o livro (1986) não acreditei que havia toda uma segregação no mundo da publicação. Entretanto, logo que eu comecei a longa busca por um editor, eu vi que eu era a pessoa errada para procurar a ajuda de um círculo basicamente fechado. Homens que já publicavam com editoras bem estabelecidas, sem exceção, dobraram suas mãos atrás de suas costas quando eu pedi sua ajuda ao introduzir este material."

É um livro para ser lido por mulheres e homens que tem escrito haiku.

QUEM É JANE REICHHOLD

Jane representa um icone feminino do haiku nos EUA e na internet. Nasceu em Lima, Ohio, em 1937 (63 anos). Estudou arte e jornalismo. Escreveu desde 1963, entre artigos e poesias para revistas dos USA, Canadá, Inglaterra, Holanda, Suiça, Romanina, Croatia etc. Começou a publicar livros de haiku em 1979.

Seu site na Internet: AHA AHAPOETRY www.ahapoetry.com

Haiku por Jane

tinta a base d'agua
para uma onda
com uma pincelada

no espelho--
suas rugas não mudam
a superfície lisa

Confirmando a declaração de Jane, outro exemplo de luta feminina no mundo publicitário do haiku foi o de Kay Titus Mormino, enquanto editora da revista Modern Haiku. Ela adoeceu e deixou a direção da revista para Robert Spiess e associados (todos homens). Quando ela era editora, a maioria do que publicava era de mulheres, mas quando Robert assumiu, a participação das mulheres passou a ser uma por edição (no circulo masculino).

BASHO E AS MULHERES

Desde o início, as mulheres praticavam a escrita do haicai, convidadas inclusive por Basho. Assim, as mulheres se fizeram presente em número considerável, mesmo dentro de uma sociedade comandada por homens.

As Regras (Poéticas) do Peregrino, de Basho, que aparece no Goshichiki em 1760 (sessenta e seis anos depois de sua morte), o capítulo 12 diz: "Não se torne intimo com aquelas mulheres escrevendo haiku; não é bom para o estudante, nem para o professor. Se ela está determinada sobre haiku, ensine-a através de uma outra. A tarefa de homens e mulheres é a reprodução. A distração pertuba a riqueza e unidade da mente. O caminho para o haiku surge da concentração e unidade da mente. Olhe dentro de voce mesmo."

"Graças a Deus, este não foi o aviso que Basho seguiu porque ele teve estudantes mulheres. É verdade que elas eram em sua maioria, esposas, irmãs, mães ou prostitutas amigas de seus parceiros favoritos na renga ou estudantes. Basho, permitia que elas adicionassem seus links a renga dos homens."

Chine, a irmã de um dos discipulos mais próximo de Basho foi incluída nas coleções antológicas. Ela morreu com 25 anos. Quando Basho soube da notícia, (ele estava em uma viagem descrita no seu livro "O Livro do Viajante,") enviou uma mensagem para Kyoai:

"Ela que não existe mais
deve ter deixado finas roupas agora
arejando na brisa de verão"

     Basho

DESTAQUE FEMININO NO HAIKU JAPONÊS

Kaga-no Chiyo-ni

Uma das mais importantes mulheres que escreveu haicai no Japão foi Kaga-no Chiyo-ni, que nasceu em 1703 e morreu em 1775. Foi uma das poucas grandes poetas em uma época quando o haiku era dominado por homens. Como uma freira, pintora e escritora de haicais, ela viveu uma vida de suprema independência a sensibilidade aestética e neste processo criou poesia encorporando a sensualidade feminina e a simplicidade Zen.

primeira chuva de inverno--
o bamboo, em algum lugar
na madrugada


Yoshiko Yoshino

Jane diz: "Em 1987 (ano em que muitas mulheres publicaram haiku) encontrei-me com Yoshiko Yoshino na conferência no Japão-EUA de Haiku no hotel Nikki em San Francisco. Ela era a única mulher palestrante e a única cujo entusiasmo e vigor fêz-nos sentar e deliciar-nos com atenção. Ela foi e é dedicada totalmente a trazer a mensagem do haiku aos leitores da lingua inglesa na firme esperança de que compartilhar das culturas conduz a uma paz durável. Ela foi e é presidente da Associação Hoshi Haiku e editora de sua revista como também um membro do conselho diretor da Associação Internacional de Haiku. Seu livro, Sakura [ Flores da cerejeira], em kanji e inglês, traz uma coleção de seu haiku de 1949-1990."

atravesso o mundo,
dependendo so' de mim,
e de meus oculos escuros.

POETAS AMERICANAS

Adelaide Crapsey

Nasceu em 1878 e morreu em 1904. Foi considerada uma das primeiras imagistas. Depois de ler a antologia Hundred Verses from Old Japan tentou criar uma nova forma de poesia chamada Cinquain, seguindo conceitos similares do haiku, mas que nunca tornou-se popular, sendo conhecida somente por muito poucos poetas. O cinquain é formado por cinco linhas de 2-4-6-8-2 versos. Seu trabalho foi publicado depois de sua morte em 1915.

TRIAD

These be
Three silent things:
The falling snow... the hour
Before the dawn... the mouth of one
Just dead.

Estas são
três coisas silenciosas
a neve caindo... a hora
antes da madrugada... a boca de alguém
que acabou de morrer

Quem vê
essa florista
retornando ao trabalho
nem nota que uma borborleta
lhe segue...

     Rosa Clement

Hilda Doolittle:

Escreveu um poema estilo haicai para a revista Poetry. Ela era uma imagista.

Amy Lowel

Em 1925, Amy publicou, "What's O'Clock", sub-entitulado, "Twenty-Four Hokku on a Modern Theme" (Vinte e quatro Kokku sobre um tema moderno. O tema era o amor irrequieto, que naquele tempo era supostamente mais adequado para a tanka e não hokku. Amy usava sempre as 17 sílabas e ao mesmo tempo trazia com claridade e sucintamente imagens que mostravam que ela podia escrever bastando ela querer, hokku de boa qualidade.

AS MULHERES QUE ESCREVEM HAICAI NO BRASIL:

Não foi possível encontrar literatura sobre mulheres que escreveram haicai no Brasil no passado distante, porém, atualmente, muitas mulheres estão se interessando e praticam essa escrita. [Internet]

Alice Ruiz

Uma das mais conhecidas é a poeta Alice Ruiz, de Curitiba, Paraná. Alice é poeta, letrista, tradutora, publicitária e professora de Haikai. Publicou o novíssimo livro de haicais DESORIENTAIS (1996), Editora Iluminuras, São Paulo, que constitui-se em uma das principais referências do haicai brasileiro.

entre uma estrela
e um vagalume
o sol se põe

varal vazio
um só fio
lua ao meio


Teruko Oda

Outra mulher que se destaca é Teruko Oda. Teruko publicou o livro NATUREZA - BERÇO DO HAICAI (KIGOLOGIA E ANTOLOGIA) como co-autora do mestre Hidekazu Masuda (Goga).

ventinho da tarde.
no leve ondular de folhas
-- Cigarra de outono.

pomar de caquis
o bezerrinho prefere
cardápio de capim!

Mulheres do Site e Lista de Haicai e outras listas

O número de mulheres que escrevem haicai é grande mas comparado ao número de homens, é sempre menor. No site de haicai do CAQUI (www.kakinet.com), o mais conhecido no Brasil, a secão de haicais publicados possui um total de 83 haicaistas, sendo que somente 17 são mulheres. Na lista de distribuição de haicais, Haikai-l haikai-l-subscribe@egroups.com, poucas mulheres se manifestam postando seus haicais, enquanto que os homens aparecem em maior número.

CONCLUSÃO:

Desde os séculos passados as mulheres fizeram presença no história do haicai. A mulher japonesa teve grande participação nas atividades poéticas do homem a ela relacionado de alguma forma. Desde então, sua presença foi se solidificando na escrita do haicai, porém sem grandes destaques, devido inclusive a maior importância dada ao trabalho do homem. No entanto, essa tendência está mudando aos poucos e as mulheres vão se introsando com a arte do haicai, ganhando espaços e destaques, como é o caso de nossas escritoras brasileiras e dessa mulher exemplar que é Jane Reichhold.

Apresentamos alguns haicais escritos por mulheres e em seguida por homens, em diversos períodos da história. Alguns por serem traduzidos, não seguem uma contagem de silabas exatas.

Rosa Clement
Manaus, AM, Brasil

Obs.: No panfleto distribuído, os seguintes haicais foram incluídos:

AS HAICAISTAS

Alice Ruiz

entre uma estrela
e um vagalume
o sol se põe

varal vazio
um só fio
lua ao meio


Eunice Cavenage

chamando mais chuva
o gato lambe seu pelo branco
preto e amarelo

fingindo doçura,
bela viúva samurai
esmaga a barata


Ignez Hokumura

noite alta
Entre a canção de ninar
o uivo do cão.


Mary Leiko Fukai Terada

ao amanhecer
pendurado no varal
descansa o orvalho.


Rosa Clement

luz para a libélula--
chega e pousa devagar
na blusa amarela

vaso da janela
cai e deixa um caco em meu pé--
foi o beija-flor...

inicio das férias--
o silencio logo acampa
nas salas de aulas


Sonia Godoy

sobre o livro aberto,
uma luz fria de inverno.
faz-se poesia.

Acima, a lua
Melhor te beijar a boca
do que te fazer versos.


Suely Moraes

Velho imigrante
recorda terra distante:
flor de pessegueiro.


Teruko Oda

ventinho da tarde.
no leve ondular de folhas
-- Cigarra de outono.

pomar de caquis:
o bezerrinho prefere
cardápio de capim!


Yara Shimada Brotto

meu pai abre a mala
voltando da terra roxa...
salta o gafanhoto!


Hortensia Anderson (França)

frio de inverno–
o jardim de pedra zen
ainda em flor

pegando um floco de neve
abro minha mão e encontro
nada dentro


Chiyo-ni (Japão)

primeira chuva de inverno--
o bamboo, em algum lugar
na madrugada


Yoshiko Yoshino (Japão)

atravesso o mundo,
dependendo so' de mim,
e de meus oculos escuros.

Ao fim do amor,
Vagalumes despontam,
Um após o outro.


Jane Reichhold (USA)

tinta a base d'agua
para uma onda
com uma pincelada

no espelho--
suas rugas nao mudam
a superficie lisa


Jeanne Cassler (USA)

noite de inverno--
minha camisa de noite
direto da lavadora

perdida para sempre--
no fundo da minha gaveta
seu bracelete de amizade



OS HAICAISTAS



Anibal Beça

girasol na tarde
se curva em reverencia--
o sol se vai


Celso Pestana

no alto do morro
um moleque solta pipa.
A praia lotada.


Edson Kenji Yura

o onibus passando
por uma torre de vidro --
lua refletida.

no vaso, uma rosa.
no cinzeiro um cigarro
manchado de baton.


Douglas (Guin Ga)

noite alongada...
perambulo pela casa
e o gato me segue.


H. Masuda Goga

paineira em flor:
casa-grande abandonada,
sem telha nem porta

libélula voando
pára um instante e lança
sua sombra no chão


Issa

na velha casa
que abandonei as cerejeiras
estão em flor


Kijo Murakami

primeira manhã de outono
o espelho em que olho
mostra o rosto do meu pai


Luiz Bacellar

uma libélula invade
a sala onde 3 poetas
falam de primavera


Basho

O mais famoso haicai de Basho:

um velho tanque
o sapo pula dentro--
o som da água


Paulo Franchetti

a velha ponte --
no pó ajuntado entre as tábuas,
brota o capim


Paulo Leminsk

duas folhas na sandália
o outono
também quer andar


Ricardo Silvestrin

longa conversa
um grilo termina
o outro começa


Shiki

depois de matar
a aranha, sinto-me tão só
no frio da noite!


Yosa Buson

pressionando sushi--
depois de um tempo
um sentimento de solidão


Zemaria Pinto

o sapo, num salto
cresce ao lume do crepúsculo
buscando a manhã

GRÊMIO SUMAÚMA DE HAICAI - (GSH)

Rosa Clement