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  Quarta-feira, 05-07-2000 Página D1 Arte Final Amazonas em Tempo      

Todo o
fascínio
dos haicai

O olhar que é uma arte

Anibal Beça*

Se existe em literatura alguma coisa próxima da fotografia e do cinema esta, sem sombra de nuvens, é o Haikai ou haiku, como é conhecido no mundo inteiro. Este mínimo poema japonês de três versos e dezessete sílabas, desde a idade média, quando se popularizou pelo gênio de Matsuo Bashô ( O bananeira), vem atravessando séculos e fascinando os olhares estrangeiros.

Há quem veja, nos que cultuam essa arte, uma dose extravagante de amor ao exótico. Outros, torcem o nariz, chamando os haijins (poetas que fazem haicais) de alienados porque dedicam-se à contemplação da natureza, se abstraindo de tudo o mais que o os rodeia. Mera tolice. São os mesmos velhos motivos de certa patrulha ideológica querendo cobrar dos poetas uma poesia a serviço de uma causa.

É preciso que se diga que não existe arte em cima do muro. Todo poema é engajado. E o motor de sua ideologia é a própria poesia, a cultura do homem desde o princípio. Homero, Virgilio, Dante, Shakespeare, Camões todos foram testemunhas de seu tempo, dizendo e denunciando. Assim como o haijin dos tempos medievais, do moderno fizeram e o do contemporâneo, que assiste as devastações das florestas e direciona seu flashe para o fato.O haicai, por excelência, é o veículo que mais tem ajudado a causa ambientalista e ecológica.Quem tiver olhos para ver, que veja. Uma das características do haicai é não entregar o ouro na bandeja. Nunca subestimar o leitor.

O que diferencia o haicai das outras artes poéticas é exatamente o seu caráter minimalista e espartano. Para os ocidentais, acostumados a enfeitar o maracá com firulas metafóricas e metonímicas, usando e abusando da arte da retórica, talvez a coisa pareça estranha, exótica e diferente. E é mesmo. Mas nem por isso deve deixar de ser experimentada.

O Haicai no ocidente entrou pelas mãos dos franceses.Cocteau e Apollinaire se derramaram em mil experiências. Pode-se dizer até, que os caligramas foram influenciados também por essa arte, assim como a proposta do poema livre de Ezra Pound e seus seguidores imagistas. É preciso que se diga que o poeta mexicano Juan Tabladas teve papel importante nessa divulgação. Em Portugal destaca-se a figura de Wenceslau de Moraes, que viveu muitos anos no Japão, apresntando uma adaptação muito próxima da trova. No Brasil, desde o início do século, alguns escritores famosos como Afranio Peixoto e Guilherme de Almeida se encarregaram de apresentá-lo ao publico. Guilherme de Almeida, como bom artesão do verso, filho dileto da escola Parnasiana, foi mais além: criou um corpus para um haicai brasileiro. Além da métrica rígida do verso em 5-7-5 sílabas, introduziu a rima, que na poesia japonesa não existe. Não contente, colocou no verso do meio a rima paralela conhecida como leonina, mas não se pode negar que ele foi o seu maior propagador. Até hoje, vemos poetas seguindo seus preceitos. Na década de 50, com Millor Fernandes em O Cruzeiro, ele se populariza mais. Os concretos paulistas também o divulgavaram, mas foi no início da década de 70, que a geração porralouca e do mimeógrafo, tendo como portavoz o poeta paranaense Paulo Lemionski, empunhou sua bandeira. Hoje, dando continuidade à causa, destaca-se Alice Ruiz, cruzando o Brasil com suas oficinas. Papel importantíssimo também, é o desenvolvido pelo Grupo Ipê de São Paulo com H. Masuda Goga (mestre), Edson Kenji Iura, que inclusive coordena uma página dedicada inteiramente ao haicai e uma lista de discussão: a Haikai-l.Outros haijins não menos importantes: Nenpoku Sato, Oldegard Vieira, Paulo Franchetti (grande estudioso e teórico) Teruko Oda, Neide Rocha Portugal, Eunice Arruda, Alonso Alvarez, Francisco Handa, Douglas Eden Brotto, Ricardo Silvestrin, Celso Pestana, Leila Miccolis, Urhacy Faustino, Alberto Murata, Francisco N. Reis, Carlos Seabra e sua "Caixa de Hai Kais" Olga Savary enfim, a lista é imensa.

No Amazonas, o poeta Luiz Bacellar, desde a década de cinquenta, com seu "Frauta de Barro", já estampava recriações suas em cima de grandes mestres e de sua lavra também. Depois seguiu-se "Crisântemo de Cem pétalas" em parceria com Roberto Evangelista até o mais recente e belíssimo "Satori". Eu mesmo e, acredito, Ronaldo Bomfim, primo do poeta, começamos a conhecer e cultuar o haicai levados pela sua mão. Em meu livro "Filhos da Várzea", coloquei duas séries de haicais ainda à maneira de Guilherme de Almeida na forma e fortemente influenciado, nas idéias, por Millor e Leminski. A lista foi aumentando com Jorge Tufic, que ano passado lançou o seu "Sinos de papel", Zemaria Pinto, que até foi incluído em antologia internacional, tendo seus haicais traduzidos ao francês. Rosa Clement, que exercita a arte em português e inglês e o irreverente Simão Pessoa com o seu famoso "Matou Bashô e foi ao cinema".

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* Anibal Beça é poeta, autor de Suite para os habitantes da noite, Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira.





Anibal Beça: "Uma das características do haicai é não entregar o ouro na bandeja. Nunca subestimar o leitor."


"A sutileza oriental dos haicais é o centro das atenções da Quarta Literária, no Espaço Cultural da Livraria Valer, hoje às 18h30. O poeta Aníbal Beça é o convidado de honra e vai falar sobre essa tendência na poesia, contando desde sua origem, no Japão, onde é conhecido como haiku, ao seu surgimento no Brasil, na década de 20.

Consagrado nas letras amazonenses, Iogo depois de encerrar sua palestra, Beça abrirá espaço para Rosa Clement bater um papo sobre os haicais. A ênfase será para as mulheres que escrevem esses versos. "Vou fazer um resumo dos haicais desde o tempo de Basho, um dos mestres dessa arte no Japão", adianta Rosa, que trabalha com banco de dados e, há oito anos (quando rnorava nos Estados Unidos), escreve haicais.

O primeiro contato de Rosa com esse tipo de poesia se deu ao ler um jornal naquele país. Foi o suficiente para despertar-Ihe o interesse pelos haicais. Tamanho foi seu fascínio sobre o tema que escreveu e publicou alguns versos na revista Lynx, de Jane Reichold, uma das grandes haicaístas dos EUA.

A trajetória da mulher no universo dos haicais ainda é tímida se comparada à participação masculina. "Dervido a vários fatores, nós, mulheres, ainda não nos destacamos nesse campo. Muitas escrevem, mas não conseguem se projetar. Além disso, os homens comandam e algumas de nós acabam perdendo o interesse", Iamenta Rosa, aos 46 anos. "No Brasil. a excessão é Alice Ruiz, de Curitiba, que pubiicou um livro sobre haicais, informa, acrescentando não haver, contudo, estudos sobre a atuação feminina nesse ramo da literatura.

Entre os patronos do haicai brasileiro figuram Afrânio Peixoto e Guilherme de Almeida, a quem são creditadas as honras maiores da introdução dessa arte no país. No caso de Almeida, conheceu o haicai na França, e tempos depois, por um grupo de haicaístas de Sao fPaulo, ajudou a difundir o gênero no Brasil." (Amazonas em Tempo).

Na palestra de hoje, Rosa Clement dará uma boa notícia para os haicaístas de Manaus: a fundação do Grêmio Sumaúma de Haicai, cuja proposta de difusão inclui reuniões semanais. O Espaço Cultural Valer fica na rua Ramos Ferreira, próximo à esquina corm a avenida Getúlio Vargas, no Centro.