sa-ico-1.gifHomesa-ico-1.gifArtigos Sobre Haicai

Um Haicai, Vários Autores

Rosa Clement

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O haicai, esse pequeno poema de origem japonesa, composto de três versos vem sendo cada vez mais praticado por grupos de brasileiros interessados em sua arte e técnica. Em busca de um momento único da natureza para acomodar em suas poucas linhas, o hacai desafia a criatividade de quem o escreve. Já que sua essência se baseia na observação da natureza, a probabilidade de encontrarmos dois ou mais haicais similares é, no mínimo, uma interessante coincidência. É surpreendente como o mundo se torna tão pequeno em seu universo de imagens e palavras, quando se trata de colocar a experiência que vivemos em apenas três linhas de um haicai. Mas quando a imagem do haicai não é tão comum e mesmo assim a encontramos em haicais quase gêmeos, aí nossa desconfiança fica aguçada. Porém, experiências como essa são passíveis de ocorrer, seja com poetas desconhecidos ou famosos.

Quem não conhece aquela imagem tradicionalissima da poça de chuva refletindo folha, nuvem, lua, céu, pipa, flores, sapo, etc? Até compreendemos quando nos deparamos com esse tipo de haicai, por ser uma cena que um haicaísta (escritor de haicai) geralmente tem vivenciado. Nem mesmo Afrânio Peixoto e Millôr Fernandes resistiram ao espelhamento de uma poça d'água:

Na poça de lama
como no divino céu,
Também passa a lua.
Afrânio Peixoto

Na poça da rua
O vira-lata
Lambe a lua
Millôr

As vezes, ao folhear páginas de livros ou eletrônicas, encontramos haicai que contém uma imagem idêntica a que havíamos usado em nosso haicai ou que nos parece familiar. Isso geralmente nos surpreende. Porém, cenas que vemos hoje e registramos em nossos poemas podem refletir aquelas que os olhos de Basho, Buson ou Kerouac e muitos outros observaram um dia. A natureza é assim, decora com figuras similares, seus diferentes cantos como se para oferecer chances iguais a seus admiradores, os poetas e especialmente os escritores de haicais. Assim é que encontramos haicais cujas cenas descritas nos remetem a outros que de alguma forma já conhecemos. Felizmente, a mesma natureza também permite que uma combinação dessas imagens e a criatividade do escritor gerem um poema único e que nos faz querer ter sido seu autor ou que nos faz perguntar por que não vimos essa cena antes?

Nossa língua, por exemplo, é tão rica, mas o número de palavras que escolhemos para formar um haicai parece limitar-se a um dicionário de bolso em linguagem universal. Portanto, a probabilidade de um haicai se repetir no mesmo ambiente ou em ambientes totalmente distintos não deveria causar surpresas. Esse fato pode até ser traduzido como plágio, ou indicar que o novo autor usou de má fé. Geralmente, quando isso acontece, o assunto vem à tona, e o autor em questão é gentilmente (nem sempre) interrogado por alguém interessado em desvendar o mistério. Infelizmente, nesse emaranhado de boas intenções, critícas e dúvidas, o plágio ou a cópia total de idéias pode realmente estar presente. Pode ser que uma secreta desconfiança tome conta de nós e que casualidades não nos convençam de imediato a não ser quando é o nosso haicai que foi escrito por outro autor.

William Higginson (1985), um americano estudioso do haicai, cita dois outros respeitáveis autores que usam palavras similares mas idéias diferentes em seus haicais publicados em revistas de haiku:

an empty elevator
opens
closes
Jack Cain

um elevador vazio
abre
fecha

the elevator
opens...
vacant masks
... closes
Frank K. Robinson

o elevador
abre...
máscaras vazias
...fecha

É natural que termos ou frases tradicionais sejam usados em diferentes haicais, principalmente porque algumas dessas frases são utilizadas para indicar a estação a qual o haicai pertence (kigo). Assim começar ou terminar um haicai com "tarde de verão" ou "manhã de inverno" é muito comum e perfeitamente aceitável no mundo onde três linhas precisam dizer tanto, como mostram os mestres Bashô, Buson:

Harvest moon--
the tide rises
almost to my door
Bashô

Lua da colheita--
a maré sobe
quase até minha porta

Harvest moon--
called in his house,
he was digging potatoes.
Buson

Lua da colheita--
chamado em sua casa,
ele estava arrancando batatas

Se fosse possível criar um banco de dados de haicais já escritos, poderiamos consultar sobre as várias imagens que um caracol ou ainda uma libélula, por exemplo, nos oferece. Isso porque ao escrever um haicai, pode ser que inconscientemente estejamos plagiando alguém que nem conhecemos. Para evitar esse transtorno, esse banco de dados seria consultado e nos convidaria a ir em busca de experiências únicas para alimentá-lo. Como a chance desse banco de dados existir é obra de ficção, prosseguiremos na busca de perpetuar a autenticidade dos infinitos momentos que a natureza nos oferece, repetindo-se e repetindo-se.

Traduções dos haicais: Rosa Clement

Bibliografia:

Disponível em Influência da Poesia Oriental na Literatura Luso-Brasileira: O HAI-KAI. www.instituto-camoes.pt/cvc/bvc/revistaicalp/haikai.pdf.

Disponível em Jornal de Poesia: Millôr Fernandes. http://www.secrel.com.br/jpoesia/millor08.html.

1. HASS, Robert. The Essential Haiku - Versions of Basho, Buson, & Issa. New Jersey, USA: The Eco Press. 1994, 330p.

2. HIGGINSON, William J. The Haiku Handbook. Japan: Kodansha International, 1985, 338p.