Os Tankas de Kikuji Iwanami
Esmeralda Garcia
Recentemente li alguns livros de poesia e entre eles um de tankas de Kikuji Iwanami publicado em 1993, um japonês que imigrou para o Brasil quando ainda muito jovem e passou a vida cultivando a terra durante o dia e escrevendo tankas à noite. Segundo seu tradutor - Massuo Yamaki - seus tankas são, à primeira vista, singelos, mas isto se deve ao fato dele sempre ter estado ligado a um grupo de tankaístas que se baseavam no princípio de que - segundo as palavras de Massuo - "se deve descrever o objeto exatamente como ele é". Fui lendo o livro e me inteirando do significado destas palavras e aconteceu que acabei me envolvendo com este autor por intermédio de seus versos. Quero dizer: eu pude compreender melhor as razões, se é que se pode chamar de razão, de seus tankas porque eles - no livro - se encadeiam quase de maneira biográfica.
Tenho uma tendência forte de escrever poemas até certo ponto "herméticos" e algumas vezes beirando o "surrealismo", isto é expontâneo em mim e talvez fosse por isso que eu tivesse um pouco mais de resistência em relação ao haicai e ao tanka, mas depois de ler este livro creio que cheguei perto de compreender a beleza estética contida no realismo.
Aqui estão alguns versos de Kikuji:
"Ao entardecer
que saudade eu sinto...
O raio de sol,
mesmo por pouco tempo,
na janela da prisão."
O tanka acima foi escrito quando ele esteve preso durante a caça aos japoneses que viviam no Brasil durante a segunda guerra mundial. Coisa semelhante aconteceu também com os alemães.
"Quando coloco
pêssegos nos saquinhos
- virados pra cima -
avião de carreira
passa alto, bem alto."
"Dia de júbilo...
No aniversário
do Imperador
ligaram luz elétrica
na minha velha casa."
"Vou semeando
rainhas-margaridas
brancas e vermelhas
para colher e vender,
no Dia dos Finados."
"Com quatro filhos,
uns tankas imperfeitos
Não mais que isso...
Será dessa maneira
que eu vou envelhecer?"
Iwanami não respeita o rigor da métrica e isto, segundo seu tradutor, era um sintoma de uma visão progressista em relação ao método. No entanto isto não é um consenso entre poetas em nenhum lugar. Seguem abaixo algumas informações sobre Kikuji Iwanami que constam deste livro e que são fornecidas por Masuo Yamaki:
"Kikuji Iwanami nasceu em 1898 na aldeia Shiga, na província de Nagano, Japão. Em 1918 ingressa na agremiação de tankaístas Araragui e torna-se discípulo de Akahiko Shimagui (1876-1926). A revista Araragui, fundada em 1908 é considerada a maior revista especializada em tanka, e tem sua origem ligada ao Neguishi Tankakai, que em 1898 deu início a luta pela renovação do tanka. Segundo Kikuji Iwanami, a forma regular de cinco versos com total de 31 sílabas era apenas uma questão de princípio e não havia obrigatoriedade de se manter as 31 sílabas, distribuídas em versos de 5-7-5-7-7. Assim, entre os seus trabalhos não são raros a desobediência à métrica e o excesso de sílabas. Eis uma afirmação sua: " Os antigos costumavam dizer da necessidade de se afastar cerca de um metro para não se pisar na sombra do mestre, mas isso impede o progresso...É necessário ultrapassar o mestre!"... Casa-se em 1924 e em 1925 emigra para o Brasil onde passa o resto de sua vida. Em 1952 falece aos 55 anos acometido de úlcera do estômago. No Pavilhão Japonês do Parque do Ibirapuera, na capital São Paulo é erguida em 1959 uma lápide onde está gravado o seguinte tanka de sua autoria:
"No meu coração
estão bem guardados
os montes e rios
da terra natal, Shinano...
Rememorarei sempre."
Durante sua vida participou de algumas publicações como as revistas Yashiju e Rinsen (esta última, uma publicação clandestina em japonês), e o Jornal Paulista. Teve dois de seus tankas publicados pela editora Koodansha, de Tóquio, na antologia de tankas contemporâneos Shoowa Man'yooshuu. Após sua morte a revista Yashiju publicou duas edições especiais em sua homenagem. Foi editado o livro Iwanami Kikuji Kashuu, com os 1996 tankas mais representativos. Quarenta de seus tankas foram publicados na antologia Colônia Man'yooshuu e por fim foi editado o livro Toki To Tsuti / Terratempo com 200 de seus tankas em edição bilíngue com tradução de Masuo Yamaki e Raimundo Gadelha", livro do qual tomo todas estas referências.
Agora, alguns tankas que estão no referido livro:
"O tempo, lento
enquanto eu aguardo
recuperação...
Hoje entrancei duas
réstias de cebolas."
"Na nova era
criticaram meus tankas
São atrasados...
Porém acontece que
au também penso assim."
"Lá no pessegal,
finda a podadura.
E no outono,
sob o sol, vêm em bandos
nários, pombos, rolinhas..."
"Os nosso tankas,
numa crítica anônima,
classificados
de simples maneirismo
Em parte, também acho."
"Vão florescendo
as paineiras e também
as quaresmeiras...
A estação de chuva
deste ano chega ao fim."
"Certa vez eu fiz,
com meu irmão mais velho,
um empréstimo
para saldar-lhe uma conta...
E hoje, ambos mortos."
"De vez em quando
os extremos das asas
sobem e descem
lentamente nas nuvens...
Lembra o crepúsculo."
"Sem rir ou cantar...
Vendo a repetição
de dias assim,
tenho presenciado
o passar de tantos anos."
"Mulher amada,
cabelos bem mais brancos...
Sinto, ao vê-la,
repetindo as mesmas
tarefas todos os dias."
"Ao me barbear
o espelho reflete
este meu rosto,
de olhos abatidos,
bochechas concavadas."
"Eu sempre pensei
que o cosmos fosse
flor de outono...
Entretanto, neste país,
flora o ano inteiro."
"É tão injusto...
Eixo e aliados
foram palavras
que eu aprendi quando
já estava na prisão."
"As catingueiras
não estão mais floridas...
Cheio de capim,
o morro aprofunda
a cor da estiagem."