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Vozes da Minha Rua

Aquelas meninas já não brincam nesta rua.
Não bastou serem apenas girassóis no mundo.
Tinham a obrigação de crescer
para a experiência de ser um jardim inteiro
e se espalhar além dos muros e espaços.
Era doce vê-las brincando de ciranda,
girando, girando sob o calor do sol poente.
A infância não parecia ser bolha de sabão
mas sim um relógio quebrado na parede
onde a ilusão de um tempo eterno
cantava de vez em quando com voz de um cuco
sempre pousado em nossos ombros.
Mas logo veio outro aviso do efêmero:
era hora de florir, perfumar, colorir e encantar
e descobrir que além desses horizontes
existe também uma maior glória:
a de ser árvore com galhos esticando-se,
para conquistar o rumo do infinito,
criar seu próprio arvoredo,
frutificar nas estações dos anos,
cobrir tudo com suaves sombras
replicando os tons brilhantes do verde.
A rua que hoje canta com outras vozes infantis,
arquivou as daquelas meninas-girasóis
que de vez em quanto parecem retornar
apenas para dourarem-se no sol
que se põe em nossas memórias.

  

Seção de Poemas, © (20/07/2005) Rosa Clement