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Sombras

Tudo é movimento nessa casa onde salas contam histórias.
O vento acompanha e esvoaça as cortinas de renda,
a claridade das janelas salpica brilho em nossos rostos,
e revela a presença do que nem se procura.

Pelos móveis lustrosos passeiam nossas sombras,
ora ligeiras, ora festivas, cansadas, solitárias,
que já acordam povoando seu mundo de vernizes,
sempre sem qualquer murmúrio, sempre vaporosas.

Os espelhos e vidraças arrumam nossas imagens
distraídas por nossas ocupações, e nem percebemos
que de tão translúcidas elas se juntam divinas
num autêntico álbum de fotografias não reveladas.

Nossos olhos embaçados de festas ou de reclusão,
e nossos risos, carregados de ternuras ou de melancolia,
deixam que se adensem bem próximo de nós
as amadas silhuetas de nossos antepassados.

Seção de Poemas, © (2008) Rosa Clement