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Um Olhar Sobre o Poeta das Águas, Alcides Werk

Rosa Clement

Alcides Werk (1934-2003) sempre será o poeta das águas. Seu livro de poesia sobre a floresta e os rios da região, “Trilha D´Água”, com quatro edições (1980, 1982, 1985, 1994), é de fato um livro cujas páginas não necessitam que umedeçamos nossos dedos para virá-las, porque nelas os rios e igarapés parecem ganhar movimento frente aos olhos do leitor. Já que nesse ano o tema água e sua preservação tem recebido especial atenção da mídia, não pude deixar de relacioná-lo ao nome de Alcides. Minha intenção aqui não é escrever a biografia do poeta, já que diversos sites da Internet já se encarregaram disso, mas sim, rebuscar numa onda de lembranças alguns momentos simples que ele nos proporcionou com sua poesia e amizade.

Para falar de Alcides, no entanto, é preciso mencionar uma informação importante de sua vida. Enquanto alguns poetas nascidos no Amazonas migraram para outros estados brasileiros, Alcides fez a rota contrária. Deixou sua terra, Mato Grosso do Sul, chegando ao Amazonas em 1954, quando tinha apenas 20 anos e aqui permaneceu até sua morte. Com o passar dos anos, aprendeu sobre as manhas, belezas e surpresas dos rios como um cabloco da região, tornando-se assim, um amazonense de coração. Era com essa vivência e autoridade que ele nos brindava com sua poesia.

Ninguém melhor do que o próprio Alcides para recitar seus belos poemas. Não importava o quão longos eles eram, o poeta os tinha todos na memória. Quando os recitava sua voz alta ganhava um tom cerimonioso e uma dose exata de emoção. Cada verso saia bem pronunciado e compassado para ser acolhido pela audiência e transportá-la para as longíquas paisagens, ao sabor do ritual de um poeta apaixonado e também profundo conhecedor da nossa região.

Autêntico representante da poesia amazônica, Alcides também possuía excelente domínio de gramática e com muito gosto se dedicava ao trabalho de edição de livros, uma de suas mais importantes atividades. Infelizmente, já nos últimos anos, sua visão ficava cada vez mais precária, resultado de uma operação de catarata mal sucedida. Às vezes, ele reclamava, mas mesmo assim o velho mestre não desanimava. Em algumas visitas que fiz à sua casa, o encontrava com uma lupa nas mãos, frente a luz de uma lâmpada de mesa onde ele se debruçava sobre textos, geralmente livros de poemas, corrigindo pacientemente palavra por palavra, frase por frase. Ele amava a nossa língua portuguesa e a cada correção que fazia era como se restaurasse mais um rasgo de um livro raro.

Certa vez lhe pedi para ler e criticar um conjunto de poemas meus. Creio que corria o ano de 1999, já não lembro. Ele aceitou o desafio mas por um motivo ou outro nunca recebi seus comentários de volta. Havia sempre uma promessa de devolução que nunca se concretizava. Não foi por falta de vontade, mas por falta de tempo e lugar adequado, por isso ficavamos sempre adiando um encontro, ora na casa dele, ora num bar favorito no centro da cidade. Ele queria corrigir o trabalho comigo, apontar os erros, sugerir as melhoras. Talvez a crítica já estava sendo feita sem que nem percebêssemos, pois revendo os poemas em pleno 2006, entendi que eles realmente pecisavam de bons reparos. Sempre tão gentil, ele apenas não sabia ainda como transmitir essa notícia.

Houve um tempo em que eu estava mais envolvida com os eventos culturais local, em especial a Quarta-Literária, promovida pela Livraria Valer. Geralmente, o poeta estava presente, sempre atento e crítico porque essa era sua natureza. Ele foi um dos poucos poetas com quem de vez em quando eu trocava idéias sobre literatura. Sabendo de minha preferência pelo haicai, uma forma de poesia japonesa, ele argumentava que essa arte poderia até ter sua importância mas não despertava nele nenhum interesse. Sempre entendi o motivo. Havia ainda muito para dizer sobre os nossos rios e essa afinidade com as águas sempre foi mais intensa e mais bonita que as cerejeiras florescendo para os japoneses.

Um dia Alcides me perguntou se eu recebia os convites dos eventos culturais que aconteciam na cidade, tais como lançamento de livros, exibição de poesia e afins. Respondi que não e ele tratou de providenciar que a direção dos organizadores de eventos me inclusse na lista. Ele achava que eu deveria estar mais presente nos meios culturais para ser reconhecida como poeta local. Mesmo não criticando meus poemas ele achava que eu tinha futuro e potencial para a poesia. Recebi os tais convites por algum tempo, mas por não ser uma pessoa dos holofotes, raramente eu comparecia.

Após mais alguns anos, recebi a notícia que ele estava muito doente e hospitalizado. Nunca fui visitá-lo pois minha saúde também se fragilizava e eu já estava mais afastada do meio cultural. Fiquei apenas ouvindo os rumores através dos jornais, que culminaram com a morte do grande mestre. Enviei meus pêsames para a esposa dele e lamentei a perda. Sob as luzes da mídia ou não, as águas que ele cantava ainda estão aqui, talvez mais rebeldes do que nunca com suas secas e cheias batendo recordes. Toda essa fúria, no entanto, se cala nos poemas que Alcides não escreveu.

Página da seção de Literatura do Amazonas
do site de Rosa Clement