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Poeta para Toda Obra

Rosa Clement

 

Neste setembro de 2012 o querido poeta Luiz Bacellar faleceu. Como sempre, fiquei consternada pela morte de mais um poeta do Amazonas cuja lista não é das maiores. Conheci Bacellar na Livraria Valer nos anos de 1998/1999, mas as memorias de nossa convivência já me passam esbranquiçadas, restando apenas algumas poucas lembranças para contar. É que naquela época tudo parecia eterno e o fim daquela rotina parecia longe demais. Era suficiente apenas vivê-la. Mas os dias passam rápido e com eles tudo muda muito sutilmente. No entanto, Bacellar era uma presença marcante e por isso esboço aqui sem muito esforço alguns momentos que compartilhamos no passado.

Assim, conheci o poeta, troquei idéias com ele sobre poesia, fiz presença em eventos literários a seu lado e, com o tempo, principalmente devido a meus problemas de saúde, fomos desativando nosso contato, reavendo-nos em encontros casuais, principamente em restaurantes. Porém, logo adquiri seus livros disponíveis, Sol de Feira, um livro que contém excelentes rondels sobre diversas frutas; Quarteto, com criativos poemas sobre objetos e outros poemas; e Satori, um livro de haicais. Não tenho Frauta de Barro, assim mesmo, escrito com 'r', pois não consegui encontrá-lo quando procurei. Bacellar escrevia poemas sobre a cidade, seus bairros, seus prédios, e o que lhe tocasse. Tempos depois ganhei um Satori do próprio autor devidamente dedicado. Gostei muito da poesia de Bacellar e além da poesia corrente, tinhamos em comum, um interesse maior: o haicai, o pequeno poema japones, celebrado em seu livro Satori.

Houve uma época em que nos reuníamos em nome de um grêmio chamado de Sumaúma, onde Bacellar era presença constante. Na ocasião elaborávamos e criticávamos haicais e como sempre a opinião dele era a mais esperada, considerando-se que foi ele quem introduziu o haicai no Amazonas. Certa vez, ele me sugeriu publicar um livro com meus haicais, sugestão a qual acatei depois de algum tempo, me empenhando em organizar os haicais em forma de livro e enviá-lo para a editora que o submeteu a sua critica cujo resultado final foi um sim do poeta. Essa foi a última notícia que tive sobre o livro que nunca veio a existir de fato. Mas não importava, continuei a escrever meus haicais com o afã de quem é fã dessa arte japonesa.

Isso me faz lembrar que além do haicai, eu e Bacellar compartilhávamos o gosto pela comida japonesa. Algumas vezes nos encontrávamos ao acaso no restaurante Himawari, aparentemente seu preferido, localizado perto da igreja São Sebastião e da praça de mesmo nome, inclusive no livro Quarteto há um poema, Vesperal, que menciona as pombas voando quanto tocam os sinos enquanto o poeta caminha pela praça. Voltando ao restaurante, podia-se notar que ele era um cliente assíduo, ao escutarmos os diálogos entre ele e os serventes. Certa vez ele veio sentar-se conosco e conversou sobre diverssos assuntos, desta vez sem tocar em haicai. Foi ai que ele nos contou que fora assaltado em sua residência e que o ladrão se ocupara em levar principalmente CD´s da coleção do poeta. Nos encontramos, tempos depois, em outro restaurante também, o Suzuran, mas nosso diálogo foi apenas um "olá, como vai?".

Foi através do jornal que eu fiquei sabendo que Bacellar estava doente e que completara 84 anos de vida. Li com pesar sobre sua morte, dias depois da notícia de seu aniversário. Mas a frauta de barro não parou de tocar sobre o rio e a mata. Bacellar é um poeta imortal e seus poemas e sua trajetória sempre serão lembrados e recitados pelos amigos não importa quantos anos passem. Termino esse texto com três haicais elaborados a partir de temas ou assuntos de poemas de seu livro Quarteto, em homenagem ao poeta:

carambolas
o poeta corta estrelas
para suco

lavadeiras
as bolhas de sabão
levam o sol

pombos da praça
abrem o caminho
um poeta passa

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do site de Rosa Clement