Trovas Para Dona Aurolina
Rosa Clement
No final dos anos 90 conheci a poetisa Aurolina Araújo de Castro(1933-2004), em uma das primeiras Quartas Literárias, um evento promovido pela Livraria Valer que eu costumava frequentar. Ela era filha de um poeta local, Mavignier de Castro (1895-1972), que deu sua contribuição para a poesia amazonense. Ela, uma senhora que já havia entrado na melhor idade, se apresentava sempre elegante, cabelo bem arrumado, olhar compenetrado. Nunca a vi falando ou gesticulando muito e com ela troquei poucas palavras, geralmente aquelas formais ditas por quem chega ou deixa um evento social. Dona Aurolina amava a trova e a usava como se esta fosse um talismã cujo encanto ela gostava de passar de mão em mão.
Nos eventos das Quartas Literárias, Dona Aurolina cuidava com dedicação do livro de assinaturas, mostrando-o para quem vinha assistir as palestras, deixando transparecer sua grande afeição por aquela tarefa regida pela arte poética. Era um trabalho voluntário, mas Dona Aurolina o executava com uma propriedade que dava uma certa solenidade aos momentos mais simples do evento. Na hora marcada para o início da palestra ela sentava-se à mesa ao lado dos palestrantes e permanecia séria e atenta a tudo e a todos. Quando a palestra encerrava ela cuidava de sortear os livros de poesia entre o público presente. Ao final de tudo, era como se a sala fosse um livro de cabeceira que se fechava para ser aberto mais tarde.
Lembro que certa vez, Dona Aurolina se animou para criar uma espécie de grêmio da trova, isso em 2000. Ela perguntou se eu gostava dessa forma de poesia e me fez o convite para participar das reuniões, quando eu disse que sim. Tenho a impressão que o grêmio conseguiu decolar por uns meses, mas não estou certa já que na época eu estava também envolvida com o grêmio Sumaúma de Haicai, cuja vida foi também curta.
Numa tarde do ano 2004, li pelos jornais a notícia da morte da poetisa Aurolina Castro. Fui envolvida por uma sensação estranha de perda ao lembrar da imagem de Dona Aurolina como uma mulher que conheci sempre ativa e saudável, e que era dona de grande energia e graça poética. Ela própria me lembrava de um livro de trovas que se fechava, talvez não para sempre. Para ela dedico essas simples trovas de minha autoria.
têm dias que o vento passa
deixando um sopro tão fraco
mas outros dias se anima
e põe-se a encher o saconessa noite tão calada
a escuridão se acentua
para mostrar vagalumes
e dar descanso pra luaquando um poeta se vai
seus poemas tão cuidados
bradam que, mesmo orfãos,
não querem ser adotados