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Nem Tão Domésticas

É nos banheiros de aeroportos e hotéis que tento compreender a linguagem das torneiras. Concluo que tal como a língua de seus países de origem, é preciso saber interpretá-las para que elas respondam às nossas perguntas. Já havia percebido que algumas torneiras brasileiras imitam aquelas americanas e portanto, seus sotaques são logo notáveis, mesmo se for preciso alguns minutos com elas para que seus acentos estrangeiros se tornem familiar. Entendendo a maneira como essa donas da água reagem, sinto uma satisfação inconsciente por ter vencido uma possível batalha, munida de simples gestos. Desse diálogo mudo compreendo que os equipamentos tecnológicos nem sempre são domesticados ao primeiro toque. No que compete às torneiras, no mínimo, essas musas tecnólogicas servem para testar meu humor na guerra silenciosa travada em campo restrito.

Uma opção que conheço desde menina e muito comum em nossas casas brasileiras é a velha maneira de abrir a torneira num gesto de desenroscar até a água cair. Mas esse truque é muito óbvio. Assim, a experiência já me avisa que existem outras cinco maneiras para fazer uma torneira funcionar: girar a cabeça dela para cima ou para baixo; para o lado esquerdo ou direito; puxá-la fortemente em minha direção; simplesmente colocar as mãos embaixo dela sem fazer esforço, para que a água jorre por alguns segundos; ou ainda apertar um botão que fará essa amiga liberar seu precioso produto por cinco segundos. Quando não recebo nenhuma dessas respostas, há sempre uma observadora que traduz essa linguagem, geralmente com o ar de quem sempre soube o segredo dessas operações.

Enfrento essas curiosidades pela água. Não é a água do rio que quero nesse momento, nem a do mar ou a da chuva. Quero a água que pode ser controlada por um gesto, a água prática requisitada em porções desenhadas para cair do chuveiro em correntes finas, na temperatura perfeita. É por ela que decifro mecanismos, para ter as comodidades da intimidade a minha disposição. Essa é água quase domada, doméstica, dominada, que vem de tão distante, correndo por canos longos deitados ou de pé, que não podem aparecer. É a água que percorre caminhos tortuosos coberto por paredes enormes com o objetivo de entregar o líquido prateado em minhas mãos, o qual desfruto após ganhar uma batalha inconscientemente.

Página integrante da seção de Crônicas
© 2004 Rosa Clement