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Pacientes Marcados

A sala de espera ganhou novo piso e suas paredes foram pintadas de um tom levemente esverdeado. Concluo que ficou bonito, mas pergunto-me por que não a cor branca tradicional, em lugar daquela cor fio de esperança? Talvez as pessoas que também esperam por ali se preocupem em analisar esses detalhes. Algumas conversam e outras apenas esperam envolvidas em pensamentos aleatórios que são interrompidos a cada nome gritado pelo técnico em radioterapia. É um mundo pequeno e novo para todos, cuja entrada é a porta sombria do cancer.

É necessário ser paciente em todos os sentidos para fazer parte dessa sala. Não se pergunta a alguém por que ele ou ela tem traços rubros de pincel na face, pescoço ou outra parte do corpo que não se vê. Aprende-se logo que são riscos necessários para limitar a área de radiação no corpo. Tudo segue uma rotina, um ritmo e um prontuário. Quando um nome é chamado, a pessoa levanta-se um tanto mecanicamente e caminha em direção a outra sala mais específica onde aparelhos de grande porte aguardam silenciosos na penumbra. A sessão de radiação diária dura cerca de oito a dez minutos. Quando termina, a pessoa vai embora levando consigo um certo alívio.

Médicos, enfermeiras e auxiliares vão e voltam passando pela sala num caminhar sempre compassado indicando que não há motivos para pressa. Talvez até eles tragam no bolso de suas batas brancas alguma preocupação e atenção para com aquela massa de gente, de alguma forma mutilada. Tampouco os pacientes sentem falta de que algum desses heróis da saúde venha até eles e lhes pergunte como vão passando, dê um bom dia, um aperto de mão. Certamente todos sabem que um gesto de simpatia pode servir como um paliativo ao superar a obrigação.

Lá fora, o sol brilhante destaca os limites desse mundo de gente pintada. Meninos ligeiros reparam carros estacionados de visitantes, motoristas da taxi esperam por possíveis clientes e botecos oferecem comida a preços apropriados para o bolso de quem procura por serviço público. A parada de ônibus também está logo ali após a esquina. A melhor parte dessa experiência é ultrapassar essas fronteiras e deixar tudo para trás mesmo que se tenha que voltar à sala de espera outras ansiosas vinte e sete vezes.

O futuro no entanto, se apresenta em tom cinzento. Pouco se sabe o que ele desenha para os pacientes daquela sala. Enquanto isso, tudo ao redor transcorre e corre e passa com a rotina de sempre. Apenas a certeza de sermos mortais agora parece ter sido escrita em uma nota que foi presa com um alfinete nas paredes do nosso corpo. A cor vontade de viver é verde vivo e é a mais procurada no mundo dos imortais.

Página integrante da seção de Crônicas
© 2006 Rosa Clement (13/07/06)