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Em Busca da Primavera

A primavera não "é coisa nossa". As rosas vermelho-vinho, generosas de pétalas que enchem os jardins das casas sulistas são vistas por aqui, mas abrigadas no frio controlado das floriculturas. Aqui na terra do sol e da chuva manauara, os encantos das roseiras, das hortensias, das violetas espalhando seus perfumes além das cercas e praças são substituídos pelos de flores resistentes que toleram encarar um sol fumegante. São elas que aparecem indistintamente durante o ano inteiro e a elas cabe a tarefa de dar um leve toque primaveril à nossa cidade.

É preciso querer ver a nossa primavera. As buganvilías, em suas diversas cores cobrindo quase todo seu verde, derramam-se pelos muros das casas, num espetáculo contínuo e silencioso. Outras flores, cujos nomes desconheço, exibem suas cores rosas e brancas no mesmo compasso. As sumaúmas soltam seus pompons pelos ares e pelo chão as flores do cedro dão novas estampas aos pisos de alguns estacionamentos. As gramas públicas se cobrem com flores amarelas e as ervas daninhas mostram o auge de suas vitalidades. Com tantas casas de muros tão altos e pisos acimentados, pouco se sabe das rosas meninas que ainda se aventuram a desabrochar em algum jardim privado. Falta, no entanto, o flamboyant. Não há nenhum sinal de sua exuberância vermelha para confirmar que a primavera se mescla ao sol de outubro.

Apesar de não ser uma coisa nossa, é assim que as cores de uma primavera distante respingam pelos nossos caminhos. Discreta, ela prossegue e se mostra nos vermelhos e amarelos dos cajus vendidos nas esquinas, no rosado das mangas ainda nas mangueiras distantes ou dos morangos enfileirados nas caixas nos braços dos vendedores, nos bandos de pássaros que passam ligeiros sobre os telhados em busca dos frutos dos quintais. É uma primavera sem rosas nos jardins das casas, mas é um verão requintado com flores aqui e ali, como se alguma fada brincalhona usasse sua varinha mágica para decorar a cidade com uma amostra de primavera.

Página integrante da seção de Crônicas
© 2005 Rosa Clement (05/10/05)