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Pessoas e Caixas

Pessoas e caixas possuem certas semelhanças. Refiro-me principalmente à semelhanças com caixas pretas de aviões e suas oponentes, as caixas transparentes. É que certas pessoas guardam informações das mais inesperadas, que poder ser reveladas quando seu universo maior entra em colapso. Por outro lado, há pessoas que dão a impressão que mostram todo seu conteúdo, mas que também podem surpreender com algum segredo que se oculta no meio de histórias conhecidas. Há ainda aquelas pessoas que possuem um certo quê de outros tipos de caixas, de outras cores e formas, cujos sigilos, se quebrados, podem revelar histórias de tempestades ou até bonanças. Porém, são aquelas pessoas do cenário político atual, que na forma de uma caixa preta ou transparente frente às câmeras, as que mais nos entretém com suas revelações.

Quando acontece uma fatalidade com um avião, sua caixa preta é a primeira peça a ser investigada. Assim aconteceu com o deputado Roberto Jefferson. Fêz vôos rasantes sobre o Congresso, pousou e rolou na grana, digo, grama, mas chegou um dia em que seu avião caiu, graças à sua falta de manutenção. Todos assistiram ao terrível acidente, fotografaram, filmaram, coisa de cinema, afinal ele era o artista, agora no papel de caixa preta. Vieram os peritos em bombas verbais. Todas as informações estavam na goela do deputado, guardadinhas, intactas, prontas para a imprensa, oposição, elite, povão. A cada perícia mais segredos revelados aumentavam a indignação. Pouco sabemos sobre o destino final da verdadeira caixa preta e a nós resta esperar para saber se o Brasil vai ver o ator apenas representando esse papel.

Como o inverso da caixa preta é a caixa transparente, assim tenta se mostrar o presidente Lula. Diante de tamanha tragédia ele se diz inatingível, pois sua camisa à prova de balas corruptas é feita de ética e verdade, e foi construída em um governo autenticamente transparente. Tanta transparência assim me recorda a velha história do rei que desfilava nu, dizendo estar vestido com roupas luxuriantes feitas por um espertalhão. Só que em nosso "reino", continuamos susurrando que o rei está nu e ele insiste em dizer que está vestido. Está mesmo, pois tem ao redor de si uma caixa de vidro que se torna cada vez mais opaca com tantas acusações e incoerências. Remexer no conteúdo pode quebrar essa caixa e mostrar um rei desconhecido, cujo discurso ainda tentamos acreditar.

Quanto às demais caixas, apenas guardam mercadorias menores. Dependendo do grau da celebridade, sua semelhança com essas caixas pode não despertar interesse em abrí-las. Seus conteúdos, conhecidos ou não, são convenientementes ignorados e interessam apenas à pequenos grupos. Mas para consolo de Jefferson e Lula, quem não tem os seus segredos, sejam eles pequenos ou enormes? Quem não guarda dentro de si uma caixa de Pandora, por pequena que seja? Quem não esconde um ódio, uma inveja, uma frustração em sua caixa cinzenta e fica a esperar pela hora apropriada para abrí-la? Ou quem não jura perante Deus ou pela própria mãe, nunca ter cometido atos que variam de perdoáveis a vilanescos? Ainda assim é sempre surpreendente quando alguém descobre que a tinta com que pintamos a nossa caixa mostra tonalidades imprevisíveis quando exposta à luz da crítica pública ou individual, ou seja, a nossa própria CPI.

Página integrante da seção de Crônicas
© 2005 Rosa Clement (29/07/05)