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Um Passatempo de Meu Pai

Desmontar, consertar e montar novamente aparelhos eletrônicos era uma habilidade nata do meu pai. Cresci acostumada a vê-lo em sua mesa de trabalho onde espalhava parafusos, porcas e outras peças que mais cedo ou mais tarde voltariam a seus lugares pelas mãos do mestre. Fosse o que fosse que calasse o aparelho em questão ou lhe provocasse um barulho atípico, lá estava meu pai pronto para dissecá-lo e restaurar-lhe o som apropriado. Sempre achei curioso o interesse dele em desconstruir objetos, ao mesmo tempo em que sentia confiança de que tudo voltaria a seu devido lugar e tudo funcionaria bem novamente.

Quando eu era criança, ainda era muito comum ouvir rádio e, portanto, era comum que defeitos nesse meio de comunicação tivessem urgência de ser eliminados. Essa era uma tarefa voluntária na qual meu pai colocava toda dedicação. Suas horas de lazer eram preenchidas com o conserto de aparelhos de som, a princípio defeituosos e por fim, de som nítido ansiosamente esperado pelo dono. Sim, meu pai consertava os rádios da vizinhança simplesmente pelo prazer de fazê-lo, Qualquer problema era só levar o aparelho lá com seu João. Mas logo a febre do rádio foi substituída pela novidade da televisão. No entanto, meu pai manteve o hábito de desmontar objetos para consertá-los, que, inclusive mudaram de tamanho.

Já adolescente, lembro de ver meu pai desmontando totalmente até as mínimas peças, um fusquinha que ele havia comprado. Bastava o carro fazer um barulho estranho, que meu pai estava pronto para desmontá-lo e espalhar pela garagem todas as micro-peças que compunham o velho fusca. No final da operação todas as peças voltavam a seus lugares e o suposto defeito sumia. Eu sempre ficava maravilhada com tamanha habilidade, principalmente porque meu pai nunca havia feito um curso de mecânica de automóvel, como fez para técnico de rádio simplesmente para obter o diploma.

Por anos foi assim. Já com minha própria família, era comum fazer-lhe uma visita e encontrá-lo rodeado de peças de carro, muito atarefado. Encontrava nele, uma satisfação enorme em remontar todo aquele monte de ferro. Ele se apressava em dizer que não precisava de mecânico, que ele podia consertar seu próprio carro e que fazia até melhor que um especialista a quem ele precisaria pagar. Infelizmente, não se pode desconstruir um dia, um defeito no coração, nem o tempo permite que isso tenha conserto. Com dificuldades, meu pai teve que aceitar essa obstrução, aprender a respeitá-la e se recompor.

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© 2011 Rosa Clement (12/05/09)