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Morando nas Nuvens

Ainda ontem eu estava sobre as nuvens, pois viajava de avião. Enquanto meu condutor planava, eu me sentia pondo em prática o velho dito "morando nas nuvens", que geralmente ouvimos quando estamos em estado de alheamento. Observo esses desertos de massas leitosas aparentemente macias, com um desejo secreto de poder rolar sobre elas, construindo possibilidades. Não me surpreenderia se alguém pensasse em habitá-las literalmente no futuro. Nuvens brancas, pequeninas, medianas, gigantescas, ora onduladas, ora planas, confiscadas e divididas em volumes, exibiriam o aviso "for sale" ou "sold", já que a terra a essas alturas, estaria entulhada de gente, carros, poluição. Assim, a tecnologia passaria a desenvolver asas para humanos, dispositivos imprescindíveis para subir aos céus. Para incentivar o negócio nebuloso, outro dispositivo com a dinâmica de um canguru seria adicionado ao "kit voador", para que se possa saltar de uma nuvem para outra, já que locomover-se exigirá impulso.

Outros adágios passariam a ser verdades, pois morar no alto poderia significar viver sempre enevoado e passar boa parte do tempo desanuviando a cabeça. Definitivamente, tudo e todos passariam em brancas nuvens, exceto quando chovesse. Contemplar uma paisagem branca por longo tempo seria aborrecedor e logo cores subiriam às nuvens nas mais diversas formas. Desenhar com nuvens exigiria outro grau de imaginação e sonhos de namorados ficariam por conta de algum novo planeta ainda por descobrir. Cair das nuvens seria o acidente mais comum. Não seria preciso carros voadores nem pontes, nem cercas, condições impostas pelas nuvens que continuariam a mudar de forma e lugar. Com o mundo do jeito que vai, "cair na real" seria manter os pés nas nuvens, e, viver no mundo da lua seria apenas uma informação de endereço.

Finalmente aterrizo e sinto o quanto é delicioso ter os pés no chão e nuvens nem sempre rosadas, vermelhas e laranjadas sobre minha cabeça. Como é gratificante o esplendor do sol e quanta tranquilidade nos vôos de alguns pássaros nessa imensa aquarela. Competir com eles seria uma afronta às leis dos céus. Nesse panorama, a clara realidade emerge entre filas eternas de carros movendo-se na velocidade das nuvens. Um embolado de gente surge por todos os cantos, vendendo, passando, correndo, contribuindo para uma atmosfera acizentada. De vez em quando alguém parece estar nas nuvens.

Página integrante da seção de Crônicas
© 2004 Rosa Clement