cronica cronicas

A Menina Macaco

Quando Nina ainda estava na barriga da mãe ela foi o centro de uma história bizarra. Ela poderia ter nascido um macaco. Isso mesmo, um macaco. No tempo de Nina, ainda não havia as modernidades do ultra-som para tirar o peso da dúvida e a espera do nascimento era sempre uma surpresa. A imaginação paterna e materna não tinha limites. A crença dizia que se a mulher grávida olhasse muito para uma determinada criatura, a criança seria esculpida a semelhança do tal ser. Não faltavam exemplos de casos acontecidos em outras famílias, cujos endereços eram sempre desconhecidos. A mãe de Nina achou de olhar para um macaco que surgiu de repente pela vizinhança. Restava a esperança dos pais e a espera dos mais longos nove meses.

O pai avisava:

__ Mulher, não olha pra esse macaco, porque esse menino pode nascer parecido com um.

A mãe se preocupava e quando mal desviava a vista, lá estava o visitante infernal, saltando da cerca para o quarador de roupa, do telhado para a cerca, e daí para a janela. Ninguém sabia quem era o dono do animal, até que o pai decidira caçar o indesejado com seu aspecto irritante de macaco. Embora achasse que havia tomado uma decisão muito tarde, o pai refletia consigo:

__ Se for parecido com um macaco, vou levar lá no matagal que conheço e deixo lá. Resolvido.

Finalmente chegou a hora ansiada. O coração da mãe batia forte quando a parteira deu a notícia de que havia nascido uma menina e ela não tinha nenhum traço de macaco. Nada! Nem um grito, apenas mais um bebê com um choro comum que veio ao mundo num dia morno de maio. Um alívio tomou conta da casa e os pais de Nina desconfiaram de suas crenças. Aquela não havia dado certo e o poder das orações não foi maior que a certeza de que olhar um macaco no período de gravidez faria com que a criança se transformasse em um.

Mas Nina cresceu e ficou muito levada. Era uma moreninha muito magra e comprida para sua idade. Sempre ágil nos seus movimentos, ela subia em árvores como nenhuma outra criança para comer frutos e observar as pessoas do alto. Plantava bananeira, jogava bolinhas de gude e pulava cercas com certa perícia. A mãe que já esquecera a aflição da espera do nascimento de Nina, dizia:

__ Sossega, Nina. Parece um macaco!

Página integrante da seção de Crônicas
© 2006 Rosa Clement (29/04/06)