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As Lágrimas da Mestra

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Chorar em público, com direito a ser testemunhado pela mídia, já não é considerado um ato embaraçoso mas sim compreensível. Das lágrimas presidenciais às de desconhecidos trabalhadores, todas são justificáveis: são seres humanos livres para expressar suas mais profundas emoções. Mas as lágrimas que me vem a mente nesse instante são aquelas de uma professora que tive. Depois de quase um ano sem qualquer choro, ela também verteu suas lágrimas, mas para uma audiência bem menor: um grupo de seus alunos favoritos. Estranhamente, foi essa a imagem que guardei de sua pessoa. Se for preciso vasculhar minha mente em busca de sua imagem, vou encontrá-la sempre com os olhos úmidos de lágrimas desencadeadas inicialmente por conflitos que nunca foram possíveis de esclarecer.

Pouco eu conhecia sobre essa professora. Dela sabia apenas o necessário que seria seu primeiro nome. De vez em quando, entre um tema e outro ela nos levava a entrar em seu mundo mais pessoal. Durante os primeiros meses de aula, ela foi alegre e comunicativa e até me deu uma mão na poesia. Infelizmente, não durou muito tempo para sua transformação e o clima da sala passou a ser medido pelo humor da mestra. Havia dias em que ela trazia um sorriso, cumprimentando qualquer um, e havia dias que nossas vozes pareciam trancadas com a misteriosa chave de seu descontentamento. O silêncio era apenas quebrado por sua voz mecanicamente suave, a qual nem sempre ouviamos atentamente.

As vezes eu me surpreendia pensando sobre como o desgaste do trabalho modifica o ser humano. Esse era o motivo que encontravamos para justificar a variação do humor de nossa mestra. A maioria das vezes que ela reclamava ela tinha razão. Mas não todas as vezes daqueles meses de inverno. Ela também errava e errava com maior frequência. Houve um dia em que ela cometeu seu maior erro o qual se negou a reconhecer. Então ela reuniu seus alunos favoritos e foi chorar com eles. As lágrimas dela eram verdadeiras e o apoio dos alunos era necessário. A verdade daquela história nunca foi ouvida. A partir desse acontecimento, a professora passou a mostrar mais das suas lágrimas. Pareceu que sua mágoa era agora a lente de seus olhos.

Foi assim que descobri dados mais pessoais de minha ex-mestra. Ela era sensivelmente emotiva. Descobri também com desapontamento que ela não escondia sua predileção por um grupo de alunos aos quais fazia questão de destacar, chamando-os de amigos. Nunca fui um deles, mas quanta ironia do destino quando, nas festas de Páscoa, ela foi uma vez minha amiga oculta e em outra eu fui a sua. Mas se detenho certos ensinamentos graças a essa mestra, com uma outra aprendi que pessoas passam e as desavenças também. Não sei se ela tem contido mais suas emoções e consequentemente suas lágrimas. Apenas sei que em minha mente ela estará chorando para sempre.

Página integrante da seção de Crônicas
© 2005 Rosa Clement (05/08/05)