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Os Meninos dos Sapatos de Ouro

Bastou um relance e as novas chuteiras do Ronaldinho Gaúcho me lembraram da velha história da galinha dos ovos de ouro, só que contada começando pelo fim. Deixo para quem quiser imaginar como que cheguei a essa conclusão, mas o fato é que ao vê-lo exibindo com orgulho aqueles sapatos com faixas de ouro, senti como se algum encanto de sua história tivesse se perdido. É que já conheciamos todos os passos da magia que os pés do jogador usavam para fazer os mais belos gols.

Mesmo que eu nada tenha com isso, algumas perguntas vieram junto com o pacote. Como serão os novos gols do Ronaldinho? Mais intensos, mais marcantes? Mais caros, talvez? Acredito que, no mínimo, serão tão bons quanto aqueles que ele fazia quando usava tenis de marcas desconhecidas, que acompanham a maioria dos pés brasileiros. Seus sapatos, sem dúvidas, ganharão minutos extra de glórias nas tomadas televisivas feitas para o mundo, nas partidas em campo.

Talvez ter uma chuteira de ouro seja um sonho, um mimo, que alguns grandes jogadores de futebol almejam para seus pés. Isso acontece muito quando somos crianças. "Quando eu crescer vou ter um monte de sapatos". Esse, por exemplo, pode ter sido o sonho de Imelda Marcos, esposa do ex-ditador das Filipinas, Ferdinando Marcos. Talvez ela tenha feito um negócio da China, ao pagar, digamos, cinquenta pares de sapatos pelo preço de um de ouro. Já o nosso craque Ronaldinho sonhou que queria ser um grande jogador e quando ele fosse reconhecido como tal, teria uma chuteira de ouro, e assim se fez. Foi assim com o outro Ronaldinho e quem sabe assim será com o Imperador Adriano e o menino Robinho.

Mas magias à parte, penso nos meninos do meu bairro jogando bola. Para eles também tudo começa com um campinho pelado, uma armação de madeira para o gol e a bola, é claro. Com os pés descalços eles também fazem gols. Uns melhores que outros, talvez começam a construir sua galinha dos ovos de ouro. Mas, sem olheiros ou televisão por perto, a magia fica por conta dos momentos de alegria, descontração e concentração no jogo. Talvez alguns sonhem em ser jogadores de futebol profissional, ficar famosos e, quem sabe, agora possuir uma chuteira de ouro.

Página integrante da seção de Crônicas
© 2005 Rosa Clement (01/10/05)