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As Meninas da Tarde

Numa das ruas a caminho do Distrito Industrial de minha cidade há um ponto de jovens prostitutas. Quatro a cinco delas se juntam próximo a uma parada de ônibus e ficam a espera de clientes em plenas tardes de sol explícito. Apenas uma, como se costuma dizer, é bonitinha. As demais são corpulentas e desprovidas de qualquer beleza. Mas, apesar de beleza não ser o centro dessa questão, a bonitinha parece ser a mais requisitada, já que entre um carro e outro passando ela desaparece e reaparece mais tarde, indicando a demanda por seus serviços. Nessa congregação do destino, entra ano, sai ano e elas permanecem ali, numa investida aparentemente sem mudanças.

Logo que inicia a tarde, já que as manhãs são para dormir, lá estão as meninas para mais um turno de trabalho. Nem todas se vestem a caráter. Algumas usam calças compridas e blusas coladas, mas não escondem o motivo de estarem ali. Quando não apenas esperam, conversam em pé ou sentadas na mureta de cimento ou nos bancos de espera dos ônibus. Convidam os motoristas com algum charme e despudor caprichado, checam as possibilidades, ouvem declarações rudes daqueles que levam a vida com as mãos nos volantes. Em alguma hora, um carro pára, leva uma, outro leva outra, talvez obedecendo a algum acordo feito entre elas, ou a escolha do cliente. A ultima opção é a mais provável.

As vezes parece que há disputa entre elas pelo ponto. A bonitinha muda frequentemente de lugar, cem metros, duzentos metros longe das outras. Um dia ela apareceu grávida e vinha para o ponto assim mesmo. Depois de ter a criança, ela continuou na lida. Estava um pouco mais encorpada mas logo recuperou a antiga forma e talvez até ficou magra demais, ganhando um aspecto de doente. Ela tem estado ausente, tal como as demais que, as vezes, desaparecem por algum tempo e as vezes retornam ou são substituídas por outras com características muito similares.

Na rotina desse caminho qualquer um pode captar um pouco das vidas nada fáceis dessas jovens sem perspectivas de melhoria. Talvez por ainda possuirem um pouco de orgulho, elas tentam se misturar às outras pessoas que preferem vê-las distante da parada de ônibus. Alguns desses passageiros fingem não ver as meninas e caminham em silêncio, de cabeça baixa, olhando-as de soslaio ou com modos ofensivos. Dizem que elas já foram ameaçadas pela polícia para mudar de ponto, já que parada de ônibus é lugar de respeito. Ainda assim, entre um cliente e uma espera, burlando a lei ou não, elas vão em busca de mísero dinheiro porque amanhã será um dia igualmente árduo. Tudo indica que até hoje elas não toparam com clientes cujas cuecas estão cheias de dólares.

Página integrante da seção de Crônicas
© 2006 Rosa Clement (18/07/06)