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Biografia de um Cão

maui.jpgMaui é o nome dele. Nasceu em novembro de 1995, em algum local abandonado, próximo a uma igreja e a um mercado do bairro Praça 14, da cidade de Manaus. Desgarrou-se da mãe nas primeiras semanas de vida e sem saber dos perigos que o rodeava foi logo atravessando a rua movimentada de carros. Felizmente, um deles parou para não atropelar o pequeno vira-lata sem dono até aquele momento. Foi rapidamente apanhado e levado pela senhora que estava ao lado do marido que dirigia o veículo. Aquele carro não parou por simples acaso. O motivo é explicado pelo destino. Dias atrás, em outra rua mais movimentada ainda, o casal viu um cachorrinho com as mesmas características de Maui também fazendo a perigosa travessia. Infelizmente, o carro deles estava do lado oposto ao fluxo de trânsito, e eles não puderam evitar a fatalidade. Foi assim que, quando viram Maui na mesma situação, mas na condição de ajudá-lo e evitar o acidente, recolheram o animal para salvá-lo. A partir daí, Maui foi adotado e passou a morar em uma casa de um conjunto habitacional localizado noutro bairro distante dali.

A chegada daquele cãozinho que herdou apenas a aparência de um beagle, com pelo bege com manchas brancas, causou a maior alegria nas filhas do casal. Maui ganhou casinha própria, comida e carinho e especialmente um nome diferente, Maui. A ideia para nome tão peculiar veio da filha mais velha, em homenagem ao herói havaiano, muito querido pelo seu povo. O motivo da homenagem foi devido ao retorno da família à Manaus, após cinco anos morando no Havaí e as boas lembranças das visitas à ilha de Maui. A princípio foi um nome difícil de pronunciar, mas com o tempo, as crianças e os amigos se acostumaram.

Logo nos primeiros anos, Maui, que era um cão muito gracioso e fofinho, passava seus dias nos braços da criançada da rua, amigos da filha mais nova do casal que o adotou, o que o deixou muito mimado. Cresceu, portanto, cercado de atenção. As crianças também cresceram e se mudaram para outros locais, inclusive as filhas do casal. Ainda jovem, Maui fez um amigo, com quem passava o tempo brincando, cada um de um lado do portão da casa do nosso “beagle”. Era um cachorro da mesma idade chamado Marcelo, que vinha todos os dias visitar Maui até que ambos ficassem adultos e, consequentemente, inimigos, mas principalmente por instinto. Assim, cada um foi para seu lado cuidar de seus próprios interesses e propriedades. Ficaram valentes um com outro e não podiam se aproximar que os latidos estrondavam. Por fim, Marcelo teve um fim trágico, morrendo atropelado, após anos de experiência vivendo nas ruas.

Enquanto crescia, Maui desenvolveu o gosto por carnes, frutas como tangerina e manga e alguns tipos de doce que inclui o chocolate. Por outro lado, nunca se acostumou com o sabor das rações, deixando-as para prová-las como última opção. Aprendeu boas maneiras no que tange à higiene e bom comportamento, e por viver num ambiente bilingue, aprendeu português e inglês e a executar instruções como "senta", "fica", "vem", "pega o gato", em ambas as línguas. Apesar de manso, Maui ainda exerce com razoável sucesso, a função de vigiar o portão e intimidar estranhos. Outra de suas habilidades inclui a caça às baratas após decodificar o grito correspondente. Nunca foi muito de espantar os gatos, pois é apenas um pouco maior que eles. Bem que tentou fazê-lo em sua juventude, mas os gatos o desafiavam mostrando as garras afiadas. Quase até se acostumou com a companhia felina e às vezes parece disposto a compartilhar a ração de sua tigela com os bichanos, até que seus donos apareçam para criticá-lo.

Mesmo vivendo no conforto de sua casa, Maui, ainda jovem, adorava sair para a rua em busca de aventuras. Ele era um mestre de escapadas fenomenais na menor distração de quem abrisse os portões da casa. Muitas vezes, após longas horas de vadiagem ele voltava inteiro e sem qualquer arranhão. Às vezes, voltava sujo de tudo, lama, óleo, ou no mínimo, cheio de carrapicho. Entretanto, nem tudo era assim fácil. Um dia, voltou para casa seriamente machucado. Fora atropelado por um carro na rua principal, onde o trânsito sempre foi intenso. Chegou com os dois dentes inferiores da frente pendurados, uma pata quebrada e com arranhões pelo corpo todo. Causou a maior dor em sua dona que o levou imediatamente para o veterinário que cuidava de suas vacinas. Lá, perdeu de vez os dois dentes soltos, recebeu tratamento geral e saiu com a perna numa tipóia. Aceitou todo o tratamento com muita boa vontade, como se entendesse que tudo era para o seu bem. Passou três meses assim. Voltou a andar normalmente, mas de vez em quando fica com a língua meio de fora, especialmente na hora de dormir, além de uma sequela que parece ter afetado seu cérebro, pois ocasionalmente, tende a andar para trás num estranho comportamento. No entanto, sua especialidade em mastigar ossos foi bem aceita pelos dentes restantes.

Hoje, Maui tem 13 anos completos. Está com catarata parcial e dorme a maior parte do tempo no seu tapete favorito. Sem qualquer explicação, sempre manteve o temor exagerado por barulhos de foguetes e de trovões. Portanto, não aprecia jogos de futebol, festas tradicionais, nem invernos tempestuosos. Um de seus passatempos é latir alto e forte no portão, por motivo nem sempre tão aparente. O grande momento do dia é o passeio que faz toda tarde com seu dono pelas ruas da vizinhança sempre levado pela coleira, já que suas fugas foram mais intensamente vigiadas desde o acidente. Apesar dos cuidados recebidos, nunca perdeu os velhos instintos de cheirar tudo o que encontra a gosto pelo caminho.

No dia 06/10/2009 Maui morreu de inflamação nos rins. Foi um dia e dias muito tristes.

Seção de Crônicas
© Rosa Clement (08/01/09)