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Manaus Desconstruída

Lamento ver que uma área da estrada da Ponta Negra cheia de árvores está apenas a um passo de virar mais uma verde e distante lembrança, tudo para dar lugar a mais um Shopping Center, quando já há um número de shoppings mais do que suficiente em nossa cidade. O mesmo acontece na Estrada do Turismo, onde áreas enormes são desmatadas para a construção de condominios de luxo ou armazéns do Distrito Industrial expandido. Quando será que alguém vai cercar áreas verdes para preservar e não para destruir? Tenho saudades dos tempos quando Manaus era vista por outros brasileiros como a cidade onde jacarés e onças andavam pelas ruas, porque agora nossas feras sobem aos céus em forma de prédios imensos, dos quais não precisamos. Aos poucos Manaus deixa de ser a terra das florestas e dos igarapés para se transformar numa cidade sem espaço, emparedada e cinzenta.

Acho impressionante a capacidade humana de transformar uma cidade. Muda-se um rio de lugar, põe-se abaixo um barranco maciço, constroem-se prédios altissimos, pontes sobre os rios. algumas vezes simplesmente para mostrar o trabalho de políticos. Impressiona-me também nossa capacidade de adaptação e aceitação entusiasmada dessas monstruosidades e nossa necessidade adquirida de introduzi-las em nossas vidas. Tem um velho ditado que ensina: "se não puder vencer o inimigo, junte-se a ele". Só que nem sequer há uma luta no caso de Manaus e prédios vão pipocando pela cidade, derrubando jaqueiras, jambeiros, mangueiras, enquanto atraem com promessas de conforto em suas dependencias, a arma que também derruba qualquer resistência. Assim sendo, é fácil esquecer do desconforto deixado lá fora, ao entrar na nova morada.

É verdade que já reclamei sobre ruas de barro espalhando poeira, desejando que fossem asfaltadas, que prédios antigos fossem recuperados, mas nunca desejei que edifícios enormes cobrissem a vista a ponto de se ver de longe apenas milhares de quadrinhos em longas direções vertical e horizontal, como janelas, de onde o céu já não é visto. Como moradora e filha da terra sinto-me impotente, sem condição de frear essa sede continua das construtoras, por não poder ser sequer uma pedra pequenina no sapato delas. E pouco a pouco a cidade vai enfileirando prédio após prédio, tirando a identidade da cidade, e botando sorrisos na boca dos seus construtores.

Assim a nossa paisagem urbana vai sendo violada. Ninguém se importa com o presente dado a uma cidade sem mar, que são os igarapés que cortam algumas ruas. Estes igarapés hoje servem apenas de depósito de lixo, de escoamento para dejeto humano. Poderiam embelezar a cidade sem suas margens acimentadas ou cobertas pelo matagal e palafitas. Poderiam ter uma vista bela, onde canoas navegasssem, onde peixes pudessem sobreviver como acontecia antigamente, onde pudessem se destacar como beleza da região. Mas essas construtoras não investem nos rios ou nos parques. Além disso, a população de Manaus cresceu, e acha que precisa somente de prédios e não de igarapés ou de árvores.

Página integrante da seção de Crônicas
© Rosa Clement (19/04/2012)