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Manaus Moderna

Estou no meio do trânsito quando a noitinha se aquece ainda mais pelos faróis de carros em filas, quase engavetados. A cor do asfalto da avenida merge célere com a da tardinha. Motoristas desejosos de seguir lançam olhares melancólicos e ansiosos para a frente e para os retrovisores. O cão na margem da pista não arrisca a travessia mas observa a rua como se entendesse o perigo e depois caminha no ritmo dos carros, desviando-se das pessoas apressadas. O verde breve do semáforo permite a passagem do primeiro, segundo, terceiro carro, quarto, quinto! Mais um! Em ziguezagues, motocicletas também conseguem abrir caminho no matagal de máquinas. O semáforo ordena e novos automóveis param em eterno desalinho.

Nessas horas penso sobre a Manaus antiga que conheci, com suas ruas barrentas e desertas. Havia uma enorme jaqueira ali, uma castanheira lá cobrindo um pedaço de céu do passado. Não se olhava tanto nos relógios porque não se tinha tanta pressa. Também não se ficava muito tempo sentado, porque as conversas agitavam, movimentavam, por serem feitas boca a boca e não em celulares dentro de carros. Quando chovia era comum o ritual alegre de lavar nossos sapatos em casa, depois da caminhada na lama renovada. Como alguns, levo comigo esse privilégio de armazenar memórias de paisagens que meu temporário e jovem vizinho não conheceu. Mas agora, para onde vamos? De onde viemos? Pergunto-me olhando ao meu redor, lembrando da gente conhecida que rodeava minha infância. Vamos para as mais várias lutas com o olhar que conhece de cor as vitrines, respirando fumaças de escapes e de churrasquinhos das calçadas. Viemos daqui, viemos de lá, engrandecer a nova terra.

Onde está minha cidade cheia de jacarés e cobras pelas ruas, motivos de fantasias sulistas? Está aqui enterrada por carros, shoppings e pontes. Morreu deserta e alegre com suas antigas árvores, barrancos, ladeiras e até praças e cinemas. Surgiu daquelas cinzas, a Manaus moderna, monumental, sempre ilha, entulhada de prédios por todos os lados. Basta olhar da janela do carro que algum letreiro enfeitiçante vai mostrar o jeito novo de viver. Nem o brilho da lua consegue fulgurar mais que o brilho sintético dos carros. É o brilho do futuro...

Página integrante da seção de Crônicas
© 2004 Rosa Clement