cronica cronicas

Manaus, Pouco Original

É com certa melancolia que observo os letreiros e propagandas em inglês espalhados por Manaus. Compreendo com resignação que nossa língua já não é suficiente para alimentar a fera da globalização. Sinto que o nosso português tão brasileiro já não atrai ou é eficiente na tarefa de atrair clientes para as vendas e por isso apela para o vocabulário do imponente Tio Sam. Em lugar do português, a cidade exibe o que consideram fashion, muitas vezes em inglês duvidoso, mostrando que seu povo está perdendo a estima por palavras tão belas como as nossas. Impotente, sigo levando perguntas sem respostas, reescrevendo mentalmente nas placas estrangeiras as palavras verdadeiras, resgatando-as, repetindo-as, grafitando-as nos muros da minha linguagem, num protesto mudo, para não serem esquecidas. Minha esperança é que o português amazonense perdure mais longamente, mesmo que na voz de um povo que envelhece.

Dizem que é o léxico que se renova, precisa de mais palavras, mistura tudo e está pronto. Na gramática não se toca, asseguram os mestres. Mas, calada, temo que em breve, viver nessa floresta seja assistir ao lobo-mau da língua comer a nossa cultura em pequenas mordidas. A vovozinha vai ter que dar seu jeito para traduzir sua história para o caçador, porque a chapeuzinho estará surfando na net. Enquanto isso não acontece, continuamos a comer nosso peixe com baião e pimenta murupi, a tomar açaí ou tacacá na cuia, e a provar da tapioquinha da vovó lá no Shopping. Devemos aproveitar e tomar uma caldeirada de tambaqui como se fosse a última, porque amanhã sua receita poderá ser diferente.

Infelizmente, no mundo da propaganda, o banzeiro de palavras emprestadas tem crista alta e está bem nutrido, pronto para arrebatar nosso orgulho para uma praia que não será mais nossa. O que mais dizer senão aceitar o inglês, e compreender que isto é chamado também de língua em mutação, língua viva que se molda ao consumismo? Infelizmente a língua consumida é a nossa, a outra não. Quem sabe, em algum momento iremos sentir saudade e iremos usar essa palavra com uma ponta de orgulho nos olhos, porque não existe ainda uma tradução perfeita para ela. Assim, o portanglês surfa também entre nossos rios com ares de dominador corroendo palavras que poderão ser encontradas em alguma loja virtual de antiguidades chamada Saudade.

Página integrante da seção de Crônicas
© 2004 Rosa Clement