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Dizeres de Minha Mãe

Ainda hoje, minha mãe é a minha referência para alguns dizeres populares que parecem pertencer somente aquele passado de nossa família. Ela sempre tinha um ditado pronto, na '"ponta da língua", para algum acontecimento inusitado ou para dar conselhos ou lições aos seus filhos, marido, visitantes e até mesmo aos estranhos. Naqueles dias animados, tão longe desse presente, não imaginávamos que as cenas tão simplórias e as palavras sábias e decididas de nossa jovem mãe ficariam sempre frescas em nossas memórias.

Lembro quando os políticos daqueles anos faziam suas promessas, cuja fórmula ainda é a mesma nos dias atuais. Minha mãe sentenciava logo que eles só sabiam contar histórias pra boi dormir. O aviso estava dado em palavras escondidas: não acreditem em promessas ou mais claramente, não acreditem em políticos. E como ela estava certa. Era uma mulher simples, minha mãe, e isso realçava sua tendência profética em frases como "vai chover, vou tirar a roupa do sol", "bem que eu avisei" ou "eu não disse?" Passou algum tempo quando pensei na imagem literal de um sol sem roupa e ri comigo mesma. Naquele tempo, tinhamos um cão chamado Golias, mesmo assim ela dizia que, por não ter cão iria caçar com gato, deixando para nossos olhos a felina fantasia. Certamente não era o mesmo gato escaldado que tinha medo de água fria. Assim ela passava os dias e às vezes descascava abacaxi do modo como só ela sabia. Enquanto isso dava conselhos para nos fazer entender que gente esperta não mete a mão na cumbuca, tampouco brinca com fogo. Mas minha mãe não parava por aí... Conhecíamos gente serpente e cascavel, gente anjo e demônio, gente santa e de outros credos.

Tudo fica tão distante quando se olha para trás. De vez em quando, uma nuvem branca e espessa tecida pelo tempo se esgarça para mostrar lembranças tão simples como essas. Depois tudo se fecha e nos empurra para o futuro que desejamos sempre brilhante. Há muito tempo que não ouço minha mãe aplicar os velhos dizeres em alguma situação clara ou nebulosa. Ela perdeu o hábito e o jeito com as palavras em uma outra seção de um passado alegre que ainda se esfumaça. Para tudo Deus dá jeito, ela diria...

Página integrante da seção de Crônicas
© 2005 Rosa Clement