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O Cantar do Galo

Hoje pela manhã, enquanto tomava meu café, escutei um cacarejo de um galo. Há muito que não escutava tal som, vivendo num conjunto habitacional, onde agora é o cimento que cresce que nem capim. Aparentemente, um vizinho resolveu reviver um hábito muito antigo dos nossos pais, o de criar galinhas, ou então resolveu engordar o bicho para suprir demandas futuras. Esse cacarejar me trouxe à mente memórias de minha mãe que criava diversos patos e galinhas quando eu era criança.

Nessa época, o milho não podia faltar em casa, pois era preciso alimentar a bicharada com comida natural todos os dias pela manhã e pelo final da tarde, antes de se recolherem para dormir. Era bonito ver aquelas aves virem corrrendo ao nosso encontro e se juntarem apressadas, preocupadas somente em pegar uma porção do alimento e encher o papo. Em outras horas, passavam o tempo bicando a terra em busca de outros quitutes e as vezes uma minhoca ou ate uma barata se tornava um verdadeiro manjar. Algumas galinhas e patas eram reservadas para nos dar ovos e depois pintinhos e patinhos. Quando elas tinham suas crias, ninguém mexesse com elas, que o espírito materno estava em guarda o tempo todo.

O quintal era de tamanho suficiente para vermos que todos os bichos estavam presentes, mas de vez em quando um deles se aborrecia da rotina e resolvia testar as asas para além dos nossos domínios. Era quando minha mãe nos incumbia de resgatar o fujão. Lá íamos nós bater na porta do vizinho para solicitar uma inspeção no seu quintal e talvez trazer o transgressor de volta que seria punido com um corte de asas para não mais fugir. Algumas vezes, o animal voava e nunca mais o víamos e ficávamos muito tristes com a baixa indesejada. Alguma vezes, chorávamos quando era preciso diminuir aquela população transformando um deles em almoço, afinal só havia milho bastante para uma certa quantidade de bichos.

Mas mudamos de casa e minha mãe não trouxe o hábito de criação de patos e frangos, e tudo se foi, ficou com vizinhos e perdeu-se no progresso. Os ovos que chegavam até nós eram brancos como a neve, diferentes da coloração dos ovos que estávamos acostumados a ver. Aos poucos fomos esquecendo aquele cenário caseiro tratado tão habilidosamente por minha mãe e repetido por vizinhos. Atualmente, criar galinhas na cidade virou coisa do passado. É um privilégio de poucos que ainda possuem um quintal no meio de tantos prédios. Ouvimos principalmente o som de máquinas cortantes, próprias de construções que reconhecemos de imediato mas ainda é a voz de um galo que tem o poder de encher alguma casa de lembranças.

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© 2006 Rosa Clement (18/07/06)