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Doação

Nunca fui dona de um piano de cauda e, portanto, não tenho experiências sobre as alegrias de possuí-lo ou as tristezas ou indiferenças de desfazer-me dele. Sei, entretanto, que lembranças se incrustam em objetos e até parecem gritar quando decidimos dar-lhes novos destinos. Hoje tentei esvaziar gavetas de coisas que já não uso ou preciso. Tantas miudezas, que um dia me foram dadas de presente, soavam ásperas entre meus dedos enquanto eu as livrava da poeira. Algumas levavam-me a olhá-las, a examiná-las mais atentamente, e a decidir com maior rigor sobre seus caminhos, quer seja o da doação ou o da volta à gaveta. A incerteza de meu gesto apoiava-se no nome ou na história que cada objeto trazia amarrado a si.

Entre aqueles que voltavam à gaveta estava um par de brincos de marfim em forma de elefante, presente de minha filha. O peso de carregá-los vem apenas do amor amontoado ao longo dos anos; então, ainda não era tempo para doá-los. Foi assim com alguns outros. Diante de mim, oscilavam hipnóticos os antigos gestos de entrega, e o carinho da família e dos amigos que ainda encontro ou que já não encontro mais. Era como se cada peça fosse um espelho antigo que refletia a sensibilidade do momento, ou um relógio insistente que indicava que já era hora de dar-lhe novos donos e novas histórias.

Minha mãe sempre dizia que não levamos nada desse mundo. Assim era como ela se desfazia de velhos objetos. Sigo esse dogma aprendido depois de alguns anos. Faço uso de um saco plástico e nele vou depositando o valioso e o barato, o inútil e o útil, a saudade e o passado, cada um realçado na forma de bijuterias, enfeites, estatuetas ou relógios. Talvez isso faça com que eu me sinta mais leve e creia que outras pessoas se alegrarão com meu gesto.

É difícil alcançar o nível ideal de coragem e desprendimento para desligar-se da matéria, já que a vida nos facilita o acúmulo de bens grandes e pequenos, valiosos e nem tanto. Por isso, não encontramos um Buda em cada esquina, nem em cada centena de quilometros. Tampouco tudo é doável. Cartas de amor e de amigos de simples mortais não são úteis para outros, não servem como heranças, não cabem no saco plástico. Então voltam para a gaveta porque suas palavras ainda tocam altas e claras com a beleza e sabor da música do piano que nunca tive.

Página integrante da seção de Crônicas
© 2005 Rosa Clement (12/06/05)