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A Chuva dos Anos

De repente o inverno começa e a chuva generosa traz uma sensação de repouso, que toma conta do nosso corpo. Dá uma vontade de rir sozinha ou de ficar em silêncio absoluto só para ouvir o som da chuva, ou ainda para repetir o velho trecho de conversa "ô chuvinha abençoada" para alguém ao nosso lado. Toda essa invocação é apenas porque ansiamos por uma trégua do calor intenso do verão afogueado de nossa terra.

Mas a chuva também refresca memórias. Houve um tempo quando ela era como uma de nós -- uma moleca nos chamando para uma brincadeira na rua, ou uma mãe que cantava docemente uma canção de ninar no tom e na medida do nosso pedido. As vezes, porém, ela chegava vigorosa e soava com um barulho de fim de mundo sobre o nosso telhado de alumínio. Só restava esperar que ela recolhesse seus chicotes líquidos e furiosos para que nos concentrássemos em outros sons ao redor.

Também, além da cumplicidade, a chuva nos trazia outras ocupações. Era época de plantar cebolinhas, tomates, pimentões entre flores conhecidas como cristas-de-galos, crótons vermelhos, santas terezinhas e onze horas. Por causa da chuva, retirávamos dos armários nossas sombrinhas, as quais, antes de serem esquecidas em um canto de algum lugar aconchegante, espalhavam suas cores pelas ruas cinzentas.

Hoje a chuva soa um tanto solitária pelas ruas cheias de carros. Os anos também correram rápido e nós crescemos. Até ela também se avolumou sobre o asfalto e amplos pisos de cimento. No entanto, nossos anseios por sua presença não mudaram porque é ela que dispersa o calor do nosso verão, na porção quase perfeita. Enquanto ela rega jardins e amolece a terra um pouquinho, dá a partida para uma conversa e faz florir as velhas lembranças.

Página integrante da seção de Crônicas
© 2005 Rosa Clement (28/10/05)