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Céu e Inferno

Quando eu era criança, céu e inferno eram assuntos corriqueiros. Se nada havia de concreto nesses temas, era mais seguro nos comportar para cair na graça divina e não topar com nenhum capeta no caminho. Nossos pecados e a ausência deles eram as chaves que poderiam abrir as portas das trevas ou as do paraíso. Lembro que precisávamos confessar ao padre as nossas diabruras para manter a alma limpa e garantir a salvação. Era comum ir ao confessionário onde um padre bem nutrido nos esperava, geralmente aos domingos, e com ares de juiz nos aplicava a sentença. Para obter o perdão do céu, precisávamos rezar algumas ave-marias, pai nossos e, em casos mais graves, até salve-rainhas. Eram apenas pecadinhos, tão fáceis de nos livrar deles como nos livramos de jovens ervas daninhas. Assim crescíamos entre certeza e dúvida da existência de céu e inferno.

O inferno era o lugar para os maus e as crianças estavam incluídas nessa categoria se cometessem pecados. Era na infância que aprendíamos que os adultos cometiam os pecados mais graves. Notícias de roubo ou crime não eram ainda tão comum naquele vilarejo. No entanto, eram suficientes para que compreendessemos que nem todos os humanos eram bonzinhos. Deduziamos que nenhuma oração seria suficiente para salvá-los do inferno. Eram almas perdidas que iriam sofrer nas agruras do fogo que, além de torrá-los, iria fazê-los contorcerem-se de dor ao serem garfados por diabos de rabos enormes e asas negras, pontudas e longas.

O céu, por outro lado, era para os bondosos, os sofredores, as criancinhas que morriam e para os arrenpendidos. Em algum mapa imaginário do universo, era mais fácil localizar o céu do que o inferno, pois o primeiro estaria depois das nuvens onde Deus morava com todos os anjos e santos. São Pedro era o porteiro, designado para checar as nossas vidas na terra e permitir ou não a nossa entrada pelo seu portão. Que alívio se ele dissesse sim para um recém-chegado e que tortura se o mandasse para o purgatório. Pois é, havia ainda o purgatório, um lugar entre céu e inferno que processava a alma do pecador, torturando-a um pouco com fogo para ela aprender que seu dono não devia ter feito o que fosse considerado errado quando estava na terra. Depois dessa lição, ela, a alma, estaria liberada para desfrutar da companhia dos moradores do céu.

Hoje, porém, o mundo ficou mais cético e já não se fala tanto em céu e inferno quanto antigamente. Nada tem sido provado sobre a existência desses lugares tão avessos. Talvez por essa incerteza, o número de pecadores descrentes tem aumentado consideravelmente e junto com eles, os roubos e crimes. Mas quem comete tão grandes pecados como esses descobre que o céu é a liberdade de viver que já temos e o inferno é viver sem ela, e que o endereço de ambos são aqui mesmo na terra.

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© 2005 Rosa Clement (25/09/05)