cronica cronicas

Na Era do Celular

A mulher na mesa do restaurante depois da minha, fala ao celular e em alto e bom tom se dedica inteiramente a uma conversa desnecessária para aquele momento. Acontece que ela estava almoçando com a família, que deixou de lado dando preferência e tempo para outra pessoa. A família, sem opção e cúmplice da situação, acompanha com risinhos ou silêncio total para permitir uma boa comunicação. Chego a esquecer a tal falante, distraindo-me com minha própria família, mas quando volto casualmente o olhar para a mesma mesa, a mulher ainda está euforicamente falando. Pela frequência com que me deparo com casos semelhantes, posso até generalizar que o celular é um dos responsáveis pela mudança no comportamento do ser humano moderno.

Ser moderno hoje em dia, é também andar com um celular na mão nem que seja o único item a ser carregado, pois qualquer chamada passa a ser de grande importância. É verdade que tem as propagandas, as chamadas indesejadas, mas mesmo assim, ouvir o toque do celular faz o usuário crer que ele é muito requisitado e portanto, bem visto pelos demais. É raro estar em algum lugar e não ouvir pelo menos um vibrar desse aparelho e ver alguém munir-se de grande destreza para sacá-lo do bolso ou da bolsa. A pessoa consegue comunicar-se através de murmúrios com o ouvinte do outro lado com a intenção de não interromper as atividades (quando já interrompeu) do ambiente onde ele se encontra. Isso pode acontecer na escola, no escritório e até mesmo na igreja. Por outro lado, há aqueles que não se intimidam com uma turba ao redor e fazem chamadas ou as atendem aos berros e com um gesto automático colocam uma mão num ouvido para poder escutar melhor. Ou ainda, há aqueles que não importa onde estejam, soltam a voz como se fossem os únicos no ambiente. Felizmente, há aqueles que são discretos no uso desse aparelho.

É evidente que o celular é um dispositivo importante -- e eu concordo plenamente -- como no caso de salvar uma vida, coisa que um telefone convencional nem sempre resolve. No caso oposto pode cair nas mãos erradas e ser um instrumento para sentenças de morte. Seja como for, é imprescindível e sua tendência é se reproduzir cada vez mais. Quem não tem um celular é visto como um alienado, fora do padrão esperado, um estranho que não evoluiu. Por isso, todo humano precisa ter um aparelho celular para ser um cidadão que pode acessar informação de seu interesse, seja em um banco ou outro tipo de cadastro. Hoje, até crianças, desempregados são donos desse objeto que de supérfluo passou a ser essencial.

Confesso que tenho saudades dos tempos de outrora, quando a conversa ao telefone era feita principalmente para encurtar distâncias. Havia também um maior prazer em escutar alguém do outro lado. Também o telefone não tirava fotos, não vazava videos na Internet, nem precisava recarregar. Servia simplesmente para informar sobre os entes queridos, dar noticia boa ou ruim, ou apenas conversar, enfim eram eficientes mesmo com única função. No entanto, nos dias de hoje, temos planos para falar mais a qualquer hora e sem limites tudo conforme os desejos de lucro de uma operadora no comando das conversas, pois paga-se caro e eternamente pelo prazer de falar com alguém mesmo que seja um assunto desinteressante para quem fala e principalmente para os ouvintes involuntários.

Página integrante da seção de Crônicas
© 2013 Rosa Clement (25/11/13)