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Um Cachorro Guerreiro

Todos os dias e todas as noites o cachorro de um dos meus vizinhos mais próximos late de forma constante e desesperadora. Nunca o vi na rua, não sei a qual raça pertence, pois a casa onde vive, possui um muro maciço e alto que o impede de ver qualquer movimento da nossa rua onde desfilam novidades. Seu latido vigoroso, de cão de grande porte, vem na forma de um verdadeiro lamento, de quem sofre muito com o tratamento que recebe. Não parece que leva chicotadas, ou lhe falta comida, mas sim que ele não conhece o que é liberdade.

Sinto uma compaixão profunda por esse cachorro que sequer tenho visto. A impressão que tenho é que ele vive constantemente sozinho e amarrado em um canto de um quintal acimentado. Seus donos parecem pessoas muito ocupadas que estão sempre ausentes e deixam a casa aos cuidados de um animal que certamente, se pudesse escolher, não os quereria como amigos e deles tampouco sentiria saudades.

Infelizmente, sinto-me impotente por não poder ajudá-lo. Limito-me a ouvir seu desesperado apelo por atenção, pelo mínimo que o faça sentir-se apreciado pelo seu trabalho e sua história. Desejo imensamente que seus donos fossem mais sensíveis e pudessem amar o animal que tiraram de algum lugar onde, quem sabe, ele poderia ter a chance de ser mais feliz. Mas não posso mudar seu destino. Nem eu, nem outros vizinhos nos movemos da calmaria de nossas conhecidas rotinas para aliviar esse calvário que lhe impuseram, tudo, para evitar desavenças futuras.

É estranho pensar que enquanto uns fazem de seus cães verdadeiros filhos, outros os tratam de forma cruel, como no caso desse cão. Segundo um anúncio de ração para cães, "um cão é tudo de bom". Concordo plenamente com essa afirmativa. Tenho um cachorro de raça SD (sem definição, ou seja, um vira-lata), chamado Maui, o qual estimo muito. Ele tem sua casa, seus direitos, e a atenção que merece, sem exageros. Se lhes perguntassem se nos aprovaria como amigos, talvez ainda ele reclamasse que ele deveria ganhar mais carne no almoço e na janta e nada de ração e banho só em casos extremos. Isso seria natural, afinal, nem humanos estão satisfeitos com o que possuem.

Impossibilitada de ajudar o cão desse vizinho, continuo a escutar dia após dia e noite após noite esse latido doloroso que me aflige e me inquieta. Nos momentos em que ele se cala, compartilho com ele, a paz que lhe chega na hora de refeição, ou do cansaço que resulta do esforço de nunca desistir de lutar por melhor condição de vida. Minha tristeza é apenas um pouco maior, por ter a certeza, de que nada do que eu diga ou faça mudará o destino de um cão, o qual chamo de "sofredor" e do qual não conheço um latido de orgulho.

Página integrante da seção de Crônicas
© 2006 Rosa Clement (18/07/06)