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Sem Armas

Nunca tive um revolver e como não sou caçadora tampouco tenho espingarda ou rifle. Não moro longe e nem trabalho em áreas de riscos. As balas que tenho visto são doces e há muito tempo que não vejo alguém desembrulhar uma do jeito de antigamente, se bem que as balas de mangarataia vendidas nas esquinas de minha cidade lembram de longe das balas que conheço. Posso dizer, no entanto, que no dia 23 de outubro de 2005 votei para que mais armas não fossem compradas. Infelizmente, minha tentativa de consertar o mundo falhou, pois o referendo deu arma na cabeça.

Com o resultado desse referendo caíram por terra todos os argumentos contra a venda de armas. Em protesto, sinto que preciso parafrasear alguns ditados populares. Assim que, uma arma fala por mil palavras. Uma arma diz tudo. A arma é inimiga da razão. Uma arma na mão significa balas voando. Arma que é sua, o bandido tira. À noite todas as armas são mais transparentes. Arma não traz felicidade. Arma na mão é vendaval. Cada um tem um "cowboy" dentro de si. Poderia continuar com a ladainha da arma, mas paro por aqui para não permitir que minha inventividade brinque com fogo.

Contudo, apesar de minha escolha, compreendo o lado pro-arma. É preciso defender-se do mau humano que também contribuiu com seu voto para a vitória da venda de armas. É justo também parafrasear outros ditados populares que expressam minha anti-escolha. Dizem que o seguro morreu de velho, então é melhor ter uma arma à disposição. Uma arma pode vir a calhar na hora certa. Melhor se prevenir com uma arma porque depois não dá para remediar. Um homem prevenido com uma arma vale por dois ou mais. É preferível atirar do que perder a vida em um minuto. A arma faz a força. Novamente paro por aqui, já que o ser humano precisa defender-se do ser humano, e o direito de poder ter uma arma substitui qualquer ladainha.

Ter ou não ter arma, eis o perigo da questão. Qualquer que seja a resposta, a certeza é de que sempre haverá perdedores. A segurança de cada um justificada por uma arma pode até ser necessária, mas é apenas uma parede de vidro e sua defesa tem em comum com o desarmamento, a utopia. Quem teria a perfeita solução para evitar esses partidarismos? Resta-nos apenas cantar a velha canção dos Beatles e imaginar que podemos viver em um mundo onde não há ninguém que precise matar ou morrer por causa de uma arma e imaginar e imaginar todos vivendo em paz tendo apenas o céu sobre nossas cabeças.

Página integrante da seção de Crônicas
© 2005 Rosa Clement (04/10/05)