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Um Ano a Mais

Era final de ano então reunimos alguns amigos e fomos comemorar a passagem na nossa Ponta Negra, andarilhar por seus calcadões e finalmente pousar nas escadarias de seu anfiteatro. Levamos champanhe para brindar e assim nos tornávamos parte do povão.

Eu estava assustada devido as imagens que ainda tinha na cabeça do recente jogo do Vasco e São Caetano. Eu, que não torço por ninguém (só o Brasil ainda com esperança), torcia silenciosamente pelo São Caetano, quando começou aquela confusão medonha, como diria minha mãe. Nao sei por quais cargas azuis, aquele time me animava. De repente, me vi em uma multidão similar, pronta para entrar em pânico, se alguém caisse ou simulasse uma corrida. Sou claustrofóbica, mas estava feliz, inundada de gente por todos os lados.

Um cantor amazonense se apresentava naquele momento e me fazia esquecer as ondas daquele violento jogo de futebol, e lembrar que ali todos torciam pelo mesmo time: o ano novo. O artista cantava de forma sensual e deliciosa as nossas cancões e embalava a multidão com "eu quero ir na casa dela, ai,ai, levar o meu amor pra ela, ai, ai, ta me esperando na janela, ai, ai" ou alimentava a todos remexendo ao som do "o meu amor é canibal...". Foi um momento gostoso, suado, regado a cerveja e vinho até a hora de taças com espumas tilintarem.

A meia-noite deslumbrava por conta dos foguetes. Uma mulher com cara de fantasma passou por mim, segurando um saco, apressada, com seu filho descalço. A criança recolheu uma lata de cerveja vazia e a jogou, (porque era também um menino), dentro do saco, imitando uma jogada de basquete. Errou. A mãe lhe deu uns tapas, raivosa, cheia de palavras de ódio. Nao era ano novo para eles, era qualquer ano, qualquer hora, mas não era qualquer lugar. Era o lugar para encontrar muitas latas de cerveja e refrigerante vazias, para garantir a venda e o pão do outro dia. O prefeito não viu, pois estava a 50 metros distante.

Todos brindavam, abraçavam e como todos que comemoravam, nós também fazíamos o mesmo. Eu, impotente, trouxe aquela imagem em minha cabeça que doía como se tivesse sido amasssada. Hoje, joguei uma lata dentro de um balde para reciclar, lembrando do menino e reconhecendo que tudo passou e tudo continua igual, especialmente para aquela mãe ruim e seu filho que continuaram indiferente ao ano novo.

Página integrante da seção de Crônicas
© 2013 Rosa Clement (02/01/2001)