cronica cronicas

A Cara do Ano Novo

No final de anos já longíquos, minha mãe nos chamava para olhar nossos rostos refletidos na água do pote. Se conseguissemos ver nossa imagem era porque iríamos viver o próximo ano e não precisavamos nos preocupar mais com essa prova de vida. O futuro sem bola de cristal era garantido bem ali de forma artesanal e cheia de mistérios. A partir dai, ninguém duvidava do direito recém-adquirido de viver por mais um ano. Mas um dia esse ritual materno precisou ser interrompido dado as mudanças na vida de cada filho.

Não sei como foi para minha mãe deixar de lado essa crença. Chegou um final de ano que, sem nem perceber, nos curvamos a vida moderna. A água escura e translucente do pote foi substituída por água filtrada que caia diretamente nos copos. Assim a tecnologia contribuia para que os filhos de dona Maria e de outras mães abandonassem aquela tradição nascida talvez de histórias centenárias que não foram muito além das florestas.

Apesar de não mais olhar meu rosto em nenhuma água mística, sinto que o espírito daqueles tempos me envolve com certa inquietude a cada final de ano. É que ao jeito de minha mãe aprendíamos também sobre a morte. Por isso, penso nas muitas pessoas que não passam no processo seletivo da vida e não alcançam a primeira linha de chegada do último dia do ano. Quanta desventura. Por outro lado, quanta festa para os que ficam e têm a promessa de mais um ano para viver. A vida cintila com maior intensidade no começo dos anos e é preciso celebrar essa glória.

Sentir o Ano Novo chegar, entrar nele com novas expectativas nos envolvendo é um presente que não é para todos. Minha mãe tinha razão. Para mover a esperança de viver era preciso olhar para nós mesmos, ver nossos olhos abertos, nosso sorriso de conquista dos dias por vir e acreditar que um ano mais de vida estava ao nosso alcance. O pote e a água eram apenas instrumentos para a mais desejada magia. Feliz Ano Novo.

Página integrante da seção de Crônicas
© 2006 Rosa Clement (18/07/06)