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Anjos Não Beliscam a Lua

Ainda hoje Ana lembra bem dos nomes daquelas freiras que foram suas professoras e conselheiras dos tempos de colégio. Um a um esses nomes desfilam pela memória de Ana juntamente com as atitudes e algumas histórias que envolveram as "esposas de Cristo", como elas se autodenominavam. Foi com elas que Ana aprendeu as mais variadas lições, desde tarefas domésticas, prendas, culinária e artes, solidariedade, bondade, amizade, mas também a diferença entre ser rica e ser pobre, ser bonita e ser feia. Não que esse fato fosse aquele de maior significado entre tantos outros maravilhosos, mas decerto teve sua importância na vida da pequena Ana.

Em épocas de datas festivas, era comum que algumas meninas do colégio fossem escolhidas pela irmã Rosalva, a responsável pelas comemorações dos eventos, para fazer parte da peça que seria exibida na data em evidência. A freira entrava com ar solene na sala de aula e começava a chamar aquelas que representariam os personagens. Ana desejava secretamente que seu nome fosse chamado pela irmã. Suas mãos ora apertavam o lápis, ora passeavam pela última carteira no fundo da sala onde sentava, e seus olhinhos negros brilhavam na penumbra fixados na freira. Então vinha a decepção. Mais uma vez, não tinha um papel na peça que combinasse com seu perfil. Ficava desiludida por uns dias, mas depois compreendia e até a apresentação da peça já havia esquecido o desapontamento.

Sua ansiedade e desejo de participar era notável pela irmã Rosalva e pelas colegas. Um dia, a irmã Rosalva entrou na sala para a conhecida tarefa de escolher os nomes e para surpresa de Ana, seu nome fora chamado para ser a narradora de uma pequena peça, que seria apresentada para as crianças do catecismo que acontecia aos domingos no colégio. Sua fala não passava de meras duas frases: "vem o dia", "vem a noite" que introduzia a cena toda. Foi um alívio de consciência para a freira, e uma felicidade imensa para Ana. Finalmente ela subiria naquele palco, onde as meninas que representavam anjos, fadas, princesas e outras figuras que exigiam beleza tinham tanta familiaridade. Mas foi a única vez que o nome de Ana fora chamado.

Talvez Ana, mesmo demonstrando interesse, não era uma das escolhidas por ser "diferente" das outras garotas. Não que fosse feia, era bem bonitinha, mas era demasiadamente alta para seus nove anos de idade, a maior da turma, tanto que a chamavam de "belisca a lua" e, por isso, parecia um tanto desajeitada entre as outras. Seus cabelos eram negros demais, lisos demais, e ainda uma franja uniforme e densa cobria-lhe a testa. Sua pele era morena como a das garotas típicas de sua região, e suas roupas eram quase sempre as mesmas. Ela não era rica, não tinha roupas bonitas e parecia destoar das outas garotas, muitas das quais lembravam autênticas européias, talvez descendentes de famílias de colonizadores. Eram garotas pequeninas de pele clara, que exibiam seus ricos vestidos sabendo o quanto eles faziam a diferença.

Ana aprendera que não podia ser como as colegas de classe. Depois de algum tempo, perdeu a esperança de ser chamada pela irmã Rosalva. Quando esta entrava na sala para chamar os nomes, Ana continuava indiferente, já não prestava mais atenção, se ocupava em terminar alguma tarefa, ou ler algum trecho de seu livro. Tampouco se ocupava com a alegria das garotas escolhidas, que promoviam alguma gritaria discutindo o papel que representariam, até a professora da vez, pedir ordem. Já não importava que ela não fosse para o palco onde só meninas bonitas pisavam. Ela havia entendido a mensagem que seu conhecimento de mundo imprimia em sua mente: até as coisas do céu tinham suas diferenças. Foi assim que ela entendeu que o senso maternal das freiras pode também ser raso e que anjos são sempre loiros e de olhos azuis.

Página integrante da seção de Crônicas
© 2009 Rosa Clement (12/05/09)