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De Quem Gostamos

Supõe-se que cada humano tenha sua lista de pessoas mais queridas, pelas quais garante que daria a própria vida. Assim, nesse mundo metade cheio de amor, imagine-se numa situação onde você realmente tivesse que provar essa tão repetida afirmação. Diante desse impasse restaria a você ir adiante com a tal prova de amor, amarelar ou dar um jeitinho brasileiro para salvar a própria pele. Qualquer que fosse sua reação seria possível justificá-la, pois nem todos os humanos nascem com uma grande capacidade de amar e, portanto, uma lista de pessoas amadas pode mudar de rumo a qualquer hora.

Pela ordem natural, seres humanos tendem a dizer, quando são apenas filhos, que amam os pais em primeiro lugar. Quando são pais, os filhos passam para o primeiro lugar, os pais para o segundo e o cônjuge para o terceiro ou vice-versa. Essa ordem pode ser alterada de acordo com o humano. Amamos nossos amigos em menor grau do que amamos nossos filhos. Amamos muito menos nossos vizinhos e, em menor quantidade, alguns colegas de trabalho. Há quem prefira o cachorrinho em primeiro lugar, ou ainda uma mansão ou um bom montante de dinheiro. Podemos desencavar histórias de heróis que deram a vida por muitas coisas sem deixar de fora o seu país, é claro. Muitas vezes também, em primeiro lugar de nossa lista está o nosso próprio nome e em seguida os nossos interesses, só que não os escrevemos.

Em pleno 2006, basta ler ou ver o jornal e lá está a história da jovem Suzane que tirou a vida dos próprios pais. Tudo premeditado e calculado de forma nada humana. Vê-se que ela não daria a vida por ninguém. Em sua lista dos mais queridos, os pais estavam na última página e em primeiro, uma vida regada à herança ao lado de um namorado marginal. Descobriram muito tarde que ela nasceu com o defeito "ausência de amor paterno e materno", mal que não tem cura, nem retorno. Há até quem simpatize com essa triste história. Ao redor da moça, advogados sugerem que podem nos comover e convencer que ela foi também uma vítima da própria falta de compaixão. Infelizmente, não há como resolver nossa impotência diante de casos como esses.

Enfim, a porção de amor preestabelecida com a qual nascemos, quando existe, tem seus limites. Às vezes, o pacote vem com emoções, bondades e gestos humanitários que precisam ser distribuídos entre os mais próximos de nós. Outras vezes, pode vir com deficiência de um, outro ou nenhum desses sentimentos e ainda trazer o egoísmo anexado. Assim, se há aqueles que afirmam que dariam a vida por um ente querido e realmente o fazem é porque nasceu com uma dosagem de amor cem por cento humana.

Página integrante da seção de Crônicas
© 2006 Rosa Clement (18/07/06)